A Marinha do Brasil (MB), em parceria com o King's College London (KCL), realizou, nos dias 20 e 21 de outubro, o III Simpósio de Defesa e Segurança Internacional. O evento, organizado pelo Corpo de Fuzileiros Navais, ocorreu no Rio de Janeiro.

Essa terceira edição do Simpósio, que debateu o impacto das tecnologias nas operações militares, como o uso ético e responsável da Inteligência Artificial (IA) e das armas autônomas, reuniu militares, academia e indústria. Foram 740 inscritos, oriundos de instituições civis e militares, públicas e privadas. Desse total, 590 eram universitários de 27 instituições diferentes.

A abertura do Simpósio foi realizada pelo Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), Almirante de Esquadra Arthur Fernando Bettega Corrêa, que destacou o complexo e desafiador panorama de Segurança Internacional que nos encontramos hoje: “Vivemos um período de intensificação de tensões e recrudescimento de conflitos que desafiam o Direito Internacional e, no qual, o acesso às novas tecnologias está modificando de modo indelével aspectos relacionados à segurança e à defesa. O Brasil deve fortalecer, de forma equilibrada, as diferentes expressões de seu poder nacional”, afirmou.

O Comandante-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais, Almirante de Esquadra (Fuzileiro Naval) Carlos Chagas Vianna Braga fez uma análise sobre o uso de drones nos conflitos atuais: “Antigamente, treinávamos nossos militares para operar as máquinas. Agora, precisamos ensiná-los a operar com a máquina. A máquina autônoma já está lado a lado com o ser humano, realizando tarefas semelhantes e complementares”. Ao falar sobre os investimentos no setor de defesa, destacou a importância da realização do Simpósio: “As Forças Armadas, como um todo, e em especial a Marinha do Brasil, enfrentam uma forte carência de recursos, na contramão do que acontece no restante do mundo. No Brasil, tivemos nos últimos 11 anos, uma queda dos investimentos em defesa, de 1,4% para 1% do PIB. Se olharmos o restante do mundo, onde os investimentos em defesa vêm crescendo substancialmente, a média já ultrapassa 2%. Isso é extremamente preocupante. Não se pode improvisar em defesa. Previsibilidade é fundamental para defesa do nosso Brasil. Assim, a importância desse Simpósio é fundamental, uma vez que trata de criar e difundir a mentalidade de defesa em todos aqui presentes.”

O professor doutor do KCL, Vinícius Carvalho, por sua vez, falou sobre a importância de um diálogo construtivo nos temas “Questões contemporâneas sobre Defesa e Segurança internacional” e “Conflitos armados sob a ótica do direito internacional” entre as comunidades civil e militar: “Os temas que nós tratamos aqui desde o primeiro simpósio, todos eles se mostraram copiosamente relevantes para aquilo que o mundo está vivendo e não será diferente nesse simpósio desse ano. Nós, do King’s College London, somos muito orgulhosos dessa parceria com a Marinha do Brasil e com o Corpo de Fuzileiros Navais. Esse ano nós temos participantes também da Colômbia, da França conosco. Isso quer dizer que esse Simpósio tem um espaço já garantido dentro do contexto brasileiro para discutir questões contemporâneas de segurança e defesa”, garantiu.

Após a abertura, o tema “Questões contemporâneas sobre Defesa e Segurança internacional” foi debatido por especialistas internacionais como o Contra-Almirante Laurent Bechler, do Centred' Etudes Stratégiques de la Marine (CESM) da França, e o professor doutor Thomas F. Heye, do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (INEST-UFF). O tema foi finalizado com um debate moderado pela doutora Maritza Padilla, da Escuela Superior de Guerra (ESDEGUE) da Colômbia.

Na segunda parte do dia, foi debatido o tema “Conflitos armados sob a ótica do direito internacional” pelo Capitão de Mar e Guerra Alexandre Peres, da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados da Justiça Militar da União (ENAJUM); pelo Comandante Antônio Fernandes, da Escola de Guerra Naval (EGN); e pela Doutora Eduarda Hamann, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O tema foi concluído com um debate moderado pela doutora Ana Paula Von Bochkor Podcameni, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI).

No segundo dia de Simpósio, realizado na terça-feira (21), o professor doutor Vinicius Carvalho, do KCL, abordou a questão ética e destacou o que acredita ser o futuro, já não está mais tão distante assim. “Inteligência Artificial e armas autônomas ou qualquer autonomia, não é futuro nenhum. Nós estamos falando de um passado que já está bem recorrente, muito presente na nossa vida. Não tem nada disso aqui que é futurismo, que é olhar profético sobre o que vai acontecer. Hoje isso aqui é nossa realidade do dia a dia”, afirmou.

O professor doutor Joseph Devanny, também da KCL, trouxe à tona a questão da segurança, levantando questões delicadas, como, por exemplo, como ficará o equilíbrio de poder entre as nações com o uso da IA?

“A questão aqui é: dadas as barreiras de entrada, dado o fato de que são principalmente os países atualmente mais ricos, mais tecnologicamente avançados que têm uma vantagem na pesquisa de IA, é razoável extrapolar disso e assumir que os avanços em IA vão, na verdade, apenas exacerbar, e potencialmente até acelerar, essas assimetrias? Então, não se trata tanto de transformar o equilíbrio de poder de uma forma que o reverta, mas sim de uma forma que exacerbe as tendências existentes”, comentou.

Além das palestras do King´s College London, houve também a apresentação do doutor Felipe Medeiros, diretor da empresa BAE Systems, que salientou a importância das tecnologias elétricas e híbridas, para além das IA como futuro, com debate mediado pela jornalista Thays Guimarães, do Poder 360, sobre o tema “Armas autônomas e IA aplicada a sistemas militares – desenvolvimento e aplicação.”

Para fechar, o Almirante de Esquadra (Reserva) Alvaro Augusto Dias Monteiro trouxe à luz alguns usos de IA no dia a dia da Marinha. “Eu ensino à IA o que é o comportamento anômalo e a deixo procurar no feed de vídeo de satélite. Por exemplo, nós usamos muito essa função para vigilância marítima, por causa da pesca ilegal no limite da nossa Zona Econômica Exclusiva (ZEE). Você ensina o que é o comportamento de um pesqueiro que está ali no limite da ZEE, aí ele vai marcar e olhar nesse parâmetro que você ensinou, nesse cenário de tempo. Quando um navio se mostra fora desse comportamento ele gera um feedback e entrega para o operador”, exemplificou.

Participação do Público

As alunas da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Amanda Oliveira, de 23 anos, e Annija Karkliniece, sueca, de 20 anos, comentaram sobre a contribuição do Simpósio de Defesa e Segurança Internacional para suas formações: “Somos da Escola do Exército e estudamos Ciências Militares, além de aprendermos um pouco sobre as outras Forças, sempre em prol na defesa nacional. É muito importante para a nossa formação. Até agora a parte mais interessante foi enxergar a semelhança entre uma Força e outra e entender como a gente pode cooperar”, afirmou Amanda.  “Concordo com essa visão. Foi interessante assistir aos vídeos sobre a Amazônia Azul, por exemplo, sobre a perspectiva tanto brasileira quanto internacional”, complementou Annija.

Estudante paquistanês de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense, Shahjahan Edwin, de 20 anos, destacou a importância de se aproximar de diferentes visões: "Esse evento é imprescindível, pois dá a nós, alunos de graduação, a oportunidade de se aproximar dos representantes de vários países. E eu espero aprender muito sobre as visões atuais, das geopolíticas de diversas nações em relação à segurança internacional.”

Para a estudante da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Aline Tavares, 20 anos, o melhor do evento foi desmistificarem a IA. “Temos uma noção sempre de que ou a IA é muito boa ou ela é muito ruim. Os palestrantes mostraram que ela pode ter ambos os lados, podendo ser tanto boa quanto ruim. Entendi também que segurança é um conceito muito mais amplo, não se restringindo apenas a armas e existindo outras maneiras de conseguir segurança e de atacar também”, destacou.

O aluno David Sodré, de 20 anos, da FGV, que pretende seguir profissão em segurança e defesa, ressaltou o quanto gostou das palestras e o quanto serão úteis para sua carreira. “Eu achei muito interessante como a IA está mudando a questão da guerra e como isso está se desenvolvendo, pois me interesso muito nessa questão da segurança e da defesa e quero trabalhar justamente com isso. Então, pude conhecer um pouco mais sobre como estão acontecendo essas mudanças hoje”, frisou.

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