A Marinha do Brasil (MB) lidera um projeto inédito para o desenvolvimento de um teste diagnóstico rápido, portátil e não invasivo, com o objetivo de detectar precocemente a Lesão Renal Aguda (LRA) provocada pela rabdomiólise por esforço. Essa condição, ainda pouco reconhecida nos protocolos nacionais, pode evoluir rapidamente para falência renal, exigindo diálise ou, em casos severos, podendo levar à morte. Militares, atletas, brigadistas e trabalhadores submetidos a atividades intensas em ambientes hostis estão entre os mais vulneráveis.

A iniciativa reúne pesquisadores da Marinha, universidades públicas e instituições privadas, com foco no enfrentamento de uma importante lacuna na saúde pública: a ausência de ferramentas eficazes para triagem e prevenção da LRA associada à rabdomiólise, síndrome caracterizada pela destruição de fibras musculares, que libera substâncias tóxicas na corrente sanguínea e pode comprometer a função renal.

Em países como os Estados Unidos, a rabdomiólise induzida por esforço já é reconhecida como doença ocupacional, com protocolos específicos para militares, atletas e profissionais de serviços de emergência. No Brasil, essa condição ainda não é amplamente reconhecida. Com a realização desta pesquisa, a MB contribui para o desenvolvimento de soluções biomédicas nacionais e para o cuidado preventivo de populações vulneráveis, incluindo seu efetivo militar, atletas e trabalhadores rurais.

O projeto é coordenado pela pesquisadora do Centro Tecnológico do Corpo de Fuzileiros Navais, Capitão de Fragata (Farmacêutica Bioquímica) Andreia Carneiro da Silva. À frente de uma equipe multidisciplinar, ela lidera o desenvolvimento de um teste diagnóstico portátil, com aplicação rápida e alta precisão, destinado à utilização em campo.

Segundo a Capitão de Fragata Andreia Carneiro, a motivação para o estudo surgiu a partir da observação em treinamentos militares. Casos graves de LRA acometeram indivíduos jovens, saudáveis e treinados, sem histórico clínico relevante, o que chamou a atenção da equipe. “A motivação nasceu no campo. Vimos jovens saudáveis e treinados evoluírem subitamente para rabdomiólise grave e lesão renal aguda. Ao cruzarmos esses casos com dados clínicos e relatos de outras populações expostas ao esforço extremo, ficou claro que enfrentamos um problema de saúde pública silencioso e ainda invisível nas estatísticas brasileiras”, relata.

A incorporação de testes rápidos para o diagnóstico precoce da LRA pode fortalecer a atenção básica do Sistema Único de Saúde (SUS), ao ampliar a capacidade de resposta, reduzir complicações e reforçar as ações de prevenção. A avaliação é do médico sanitarista Daniel Soranz, secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro. “A rabdomiólise é uma condição potencialmente grave, e a detecção precoce das lesões renais permite uma intervenção oportuna. Integrar essa testagem às unidades básicas de saúde possibilita triagens imediatas e encaminhamentos adequados, evitando a evolução do quadro clínico”, destaca.

A pesquisadora Monica Felts de La Roca Soares, ex-diretora do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, destaca que a aplicação de tecnologias de monitoramento e análise de dados permite personalizar o cuidado à saúde. “Ao empregar ferramentas avançadas, como as utilizadas no contexto militar, é possível identificar precocemente biomarcadores e fatores de risco em populações vulneráveis. Isso viabiliza intervenções preventivas e personalizadas. Mais do que diagnosticar e tratar, trata-se de estimular, proteger e valorizar a saúde, priorizando a prevenção à instalação da doença”, afirma.

Além dos benefícios citados, Daniel Soranz destaca que os dados gerados pela testagem podem subsidiar sistemas de vigilância epidemiológica, como o Observatório Epidemiológico do Rio (EpiRio). “Esses indicadores complementares possibilitam uma análise mais sensível e precoce, ampliando a capacidade de alerta do sistema de saúde. Ao incorporar informações clínicas, é possível antecipar riscos e adotar medidas preventivas com base em evidências, antes que os casos evoluam para situações graves”, avalia.

Monica Felts acrescenta que o projeto vai além da saúde individual, configurando-se como uma iniciativa de integração institucional. “Trata-se de um laboratório de inovação em saúde pública, com potencial para gerar modelos e tecnologias que ultrapassam o ambiente militar e podem beneficiar toda a sociedade, especialmente na vigilância de populações que requerem atenção especial. É uma ação estratégica na interseção entre defesa, ciência e saúde”, conclui.

Diante da gravidade do problema, pesquisadores desenvolvem estratégias voltadas à detecção precoce de sinais de lesão muscular e renal. Com o apoio de instituições como a USP, Unifesp, Fiocruz, Grupo Fleury e UFRJ, a pesquisa utiliza tecnologias avançadas, como a transcriptômica, que estuda a expressão de genes sob estresse, e a proteômica urinária, que analisa proteínas excretadas como sinais precoces de dano.

“Escolhemos essas abordagens porque elas nos permitem ver alterações moleculares horas antes de surgir qualquer alteração na creatinina, que é o marcador tradicional da lesão renal. Já conseguimos mapear assinaturas proteicas na urina associadas à rabdomiólise por esforço, com potencial para se tornarem alvos diagnósticos”, explica a coordenadora.

O professor João Bosco Pesquero, da Unifesp, ressalta que a identificação de genes como NGAL, IL-18, HSP e BAG em fases iniciais da lesão representa um avanço significativo, com grande potencial de aplicação prática. “Estamos falando de marcadores que se expressam nas primeiras 2 a 4 horas após o esforço físico. Isso é uma janela de ouro. A transcriptômica também nos ajuda a distinguir entre causas diferentes de LRA, se é por calor, desidratação, toxinas ou rabdomiólise. Essa diferenciação é essencial para a conduta clínica, seja ela preventiva ou de intervenção”, afirma.

Segundo Pesquero, adaptar esse tipo de ciência molecular a contextos de campo, selva, missões no mar ou deserto exige soluções inovadoras. “Estamos ajustando protocolos para garantir robustez dos dados mesmo com coleta em condições adversas, garantindo rigor científico e aplicabilidade operacional”, completa.

Desde as fases iniciais do projeto, o Grupo Fleury atua como parceiro estratégico na validação de biomarcadores e no desenvolvimento de métodos diagnósticos. “Trabalhamos em estreita colaboração com os pesquisadores da MB desde a fase de descoberta de novos biomarcadores de LRA, aplicando técnicas avançadas de proteômica, até a validação dos biomarcadores candidatos e o desenvolvimento de métodos rápidos que possam ser utilizados em campo”, afirma Valdemir Melechco Carvalho, consultor científico sênior do Grupo Fleury. “Essa colaboração tem sido uma oportunidade única para combinar nossas competências em medicina diagnóstica com a vasta expertise da equipe da Marinha em fisiologia do exercício e medicina do esporte”, completa.

Para a hematologista Maria Carolina Tostes Pintão, head de Pesquisa e Desenvolvimento do Grupo Fleury, a parceria representa uma convergência entre ciência de excelência e impacto social. “Este projeto é particularmente relevante para o Grupo Fleury por sua capacidade de ampliar o alcance da saúde preventiva, além de permitir a aplicação de tecnologias avançadas de diagnóstico em contextos desafiadores. A colaboração com uma instituição de prestígio e tradição como a Marinha reforça nosso compromisso com a inovação e com a promoção do bem-estar”.

Ainda segundo Maria Carolina, o projeto pode escalar soluções diagnósticas adaptadas a diferentes realidades. “A expertise do Grupo Fleury em medicina de precisão, combinada com a capilaridade e a estrutura logística da Marinha, cria um ambiente propício para testar e expandir novas abordagens em diagnóstico populacional. Essa iniciativa pode inclusive servir como modelo para políticas públicas de saúde preventiva em nível nacional”, analisa.

A diretora corporativa médica do Grupo Fleury, Daniella Bahia, ressalta o valor técnico e simbólico da parceria. “Do ponto de vista técnico, a colaboração com a Marinha permite validar tecnologias de ponta em ambientes de alta exigência. Já no aspecto simbólico, essa união carrega um valor imensurável: trata-se de unir ciência e inovação em prol da saúde da população. Para nós, contribuir com uma instituição que representa a proteção e o cuidado com o povo brasileiro reforça nosso compromisso com metas sociais, como prevenir doenças e ampliar o acesso à saúde.”

Para o professor Giuseppe Palmisano, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, o coração do desafio está em transformar conhecimento em tecnologia funcional fora do laboratório. “Trabalhamos com amostras de urina de militares em operações reais. Os padrões proteômicos revelam uma paisagem bioquímica rica, mas altamente variável. Por isso, usamos bioinformática avançada para identificar os biomarcadores mais consistentes, mesmo em contextos de hidratação variável, calor e exaustão. O objetivo é desenvolver um teste portátil que funcione na vida real, simples, confiável e acessível”, revela.

Segundo Palmisano, a tecnologia terá impacto direto na saúde ocupacional. “Trabalhadores do campo, operários da construção, atletas de elite, enfim, todos podem se beneficiar de um teste que previna falência renal. Estamos falando de salvar vidas e evitar incapacidades irreversíveis.”

A relevância do projeto também é reconhecida por especialistas em Educação Física, como o professor Diego Viana, da UFRJ. "Pessoas submetidas ao treinamento físico regular podem apresentar três desfechos: melhora, manutenção ou perda do desempenho. A piora, associada a dano celular progressivo, pode evoluir para LRA. Nenhum pesquisador ético poderia induzir esse dano, mas cursos operacionais, por sua natureza, permitem observar limites reais de estresse físico", explica.

Diego destaca que o teste poderá beneficiar não apenas militares, mas também atletas e frequentadores de academias. "O teste permitirá monitorar o estresse fisiológico, ajustar o tempo de recuperação, fornecer nutrientes, medicamentos ou suplementação adequada e propor intervenções fisioterapêuticas. Trata-se de uma contribuição direta para evitar lesões graves e melhorar o desempenho."

A integração de conhecimentos exemplifica como a união entre ciência, governo e setor produtivo pode resultar em inovações com amplo alcance social. Em um contexto em que a LRA representa uma ameaça crescente, iniciativas como essa contribuem para prevenir e tratar a condição, reduzindo a morbimortalidade associada e promovendo a saúde e o bem-estar da população brasileira.

Muitas vezes, nos exercícios, treinamentos e operações, os militares atuam em ambientes que exigem elevado preparo físico e resiliência fisiológica. Nessas condições, a possibilidade de aplicar um teste rápido para detecção precoce da LRA representa um avanço significativo no acompanhamento da saúde da tropa.

O Comandante do 2º Batalhão de Infantaria de Fuzileiros Navais, Capitão de Mar e Guerra (Fuzileiro Naval) Luiz Felipe de Almeida Rodrigues, destaca que a adoção de tecnologias diagnósticas em campo é vantajosa. “Em muitas situações, não é possível evitar o esforço físico ou mesmo lesões musculares por trauma, que podem evoluir para a LRA. Um diagnóstico precoce e preciso permite a adoção de medidas profiláticas e, quando necessário, o afastamento do militar para tratamento em ambiente hospitalar”, afirma.

“O uso de um teste rápido pode prevenir o agravamento do quadro e salvar vidas, além de possibilitar que, nos casos menos críticos, o tratamento seja feito em campo e o combatente retorne com segurança às suas atividades. Investir em ciência e tecnologia para preservar a vida é essencial. Isso eleva a confiança e o moral da tropa, que sabe estar sendo acompanhada de forma séria e comprometida”, conclui o Comandante Luiz Felipe.

A pesquisa foi o primeiro projeto da saúde a integrar a carteira de Projetos Estratégicos da Defesa Nacional, o que garantiu suporte técnico, logístico e operacional para testes em larga escala. “Esse reconhecimento foi decisivo. Além de financiamento e apoio logístico, tivemos maior acesso a ambientes reais de risco, o que ampliou as parcerias com universidades e setor produtivo. Estamos iniciando agora estudos com trabalhadores rurais e queremos chegar a outros setores produtivos. A solução tem que ser nacional e abrangente”, reforça a Comandante Andreia Carneiro.

Mais do que um avanço biomédico, o projeto coordenado pela MB resgata o propósito essencial da ciência: proteger vidas. A Lesão Renal Aguda provocada por esforço físico extremo não é um risco abstrato, é uma ameaça concreta para aqueles que colocam o corpo no limite todos os dias.

“A rabdomiólise por esforço pode ser prevenida, diagnosticada e tratada, se detectada a tempo. Nosso papel é oferecer ciência, sim, mas também soluções reais, humanas e viáveis para proteger quem está exposto”, afirma a Oficial da Marinha.

Ao transformar dados de campo em conhecimento, e conhecimento em tecnologia acessível, a iniciativa tornou-se um símbolo de cooperação entre Marinha, universidades públicas e setor produtivo. “Essa é uma tríade poderosa. A Marinha viabiliza o ambiente real, a universidade gera conhecimento e o setor produtivo transforma em tecnologia. Isso precisa servir de modelo para outras frentes da saúde pública, de doenças negligenciadas a riscos ocupacionais. A ciência cumpre seu papel, principalmente, quando chega aonde a vida acontece”, conclui.

No limite entre o esforço e o esgotamento, entre a prevenção e o colapso, a ciência feita pela união de pesquisadores brasileiros reafirma seu compromisso com a saúde, a dignidade e o bem-estar do ser humano.

 
Rabdomiólise: risco silencioso que pode levar à falência renal

O médico Victor Barroso Camilo Cunha Ataíde explica que a rabdomiólise pode ser desencadeada por fatores genéticos, ingestão de toxinas, traumas ou, com frequência, por esforço físico excessivo ou atividades intensas realizadas por pessoas ainda não adaptadas ao exercício.

“Durante a prática de atividades físicas, é normal que os músculos sofram pequenas microlesões como parte do processo de adaptação, o que estimula a produção de enzimas, proteínas e mecanismos de reparo. No entanto, quando o esforço é muito intenso, prolongado ou realizado sem preparo adequado, pode ocorrer uma destruição muscular exacerbada”, explicou o médico.

Nesse processo, segundo Ataíde, substâncias nefrotóxicas como a mioglobina são liberadas em grande quantidade na corrente sanguínea. Quando filtradas pelos rins em excesso, essas proteínas, ao se acumularem e obstruírem os túbulos renais, além de provocarem toxicidade direta e inflamação, podem causar insuficiência renal aguda. Com isso, os rins deixam de funcionar corretamente e em casos graves, a pessoa pode necessitar de diálise e, sem intervenção adequada, o quadro pode evoluir para morte.

 

 

Assista ao vídeo:

youtube[https://www.youtube.com/embed/Xzx9vz-dSDU]

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Comentários

ANTONIO CARLOS COSTA (não verificado) Seg, 22/09/2025 - 10:03

PARABÉNS A TODOS OS PESQUISADORES, QUE A MAIORIA DAS VEZES NO ANONIMATO
SALVAM VIDAS, QUE INICIATIVAS COMO ESSA SEJAM CADA VEZ MAIS DIVULGADAS.

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