Os sistemas não tripulados se tornaram ferramentas recorrentes nos conflitos atuais. A experiência ucraniana é a face mais visível de uma transformação que alcança outros teatros de operações e emprega simultaneamente drones menores, de baixo custo e descartáveis com plataformas aéreas, navais e terrestres sofisticadas de vigilância e de ataque. No Brasil, as forças militares investem regularmente em aquisições, mesmo enfrentando desafios tecnológicos e orçamentários.

Em encontro restrito promovido pelo Ministério da Defesa, nos dias 13 e 14 de agosto, na Escola Superior de Defesa, em Brasília (DF), especialistas das Forças Armadas apresentaram seus atuais sistemas não tripulados, iniciativas isoladas nas áreas de pesquisa, formação e desenvolvimento de novas tecnologias, além de propor soluções para ampliar a sinergia entre os três comandos e ganhar escala de produção para fazer frente a potenciais ameaças.

No mar, no ar e na terra

O Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz), lançado pela Marinha do Brasil, é um exemplo que tem sido empregado para fortalecer o monitoramento da área marítima que pertence ao País e impedir que embarcações não autorizadas circulem pela região. O desenvolvimento de sistemas não tripulados, sejam aéreos, marítimos ou terrestres, deve contribuir para incrementar as capacidades de controle dessa região.

Eles vão ajudar a desenvolver a capacidade de emprego tático em toda a área de jurisdição brasileira. Acaba sendo um arrasto para o desenvolvimento de outras tecnologias e também para conseguir preencher as possíveis lacunas que ainda existam no SisGAAz”, explica o Vice-Diretor do Centro de Desenvolvimento Doutrinário de Guerra Naval, Capitão de Mar e Guerra Elígio Guimarães de Moura.

Instituições de pesquisa da Força Naval também estão desenvolvendo sistemas capazes de operar remotamente veículos autônomos de superfície. O sistema PRIMA, criado pelo Centro de Análises de Sistemas Navais (CASNAV), já foi instalado em navios como o Navio-Aeródromo Multipropósito “Atlântico” e o Navio Doca Multipropósito “Bahia”, permitindo que funcionem como estações de controle remota. O sistema já foi empregado em 2023, durante a Operação de Garantia da Lei e da Ordem na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro (RJ).

O Exército conta, atualmente, com drones aéreos de curto alcance e de médio alcance XMOBOT e Nauru, e estuda a aquisição de unidades de longo alcance armadas com mísseis. Também tem investido em projetos para desenvolver drones terrestres com as empresas Taurus e Otokar, da Turquia, e com a EDGE, garantindo a transferência de tecnologia para o Brasil. Alguns modelos devem ser testados ainda no final do ano, na Operação Perseu.

A Força Aérea atua, há 15 anos, com o RQ-900, que é um sistema de aeronave remotamente pilotada (SARP) de origem israelense, operado na base aérea de Santa Maria (RS). O drone possui sensores capazes de operações noturnas, alcança uma distância superior a 1.000 km e é dotado de 8h de autonomia de voo. O modelo foi empregado recentemente, durante a Operação “Taquari”, contribuindo para localizar vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul.

A Instituição está realizando, ainda, um levantamento para identificar empresas nacionais capazes de desenvolver SARP, com o objetivo de aumentar a produção nacional de equipamentos militares de monitoramento aéreo. O processo foi aberto no âmbito do Projeto RQ-XBR, que pretende mapear capacidades tecnológicas e industriais específicas do Brasil em apoio à Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC).

Desafios à vista

Para o Chefe de Operações Conjuntas do Ministério da Defesa, Almirante de Esquadra Paulo Cesar Bittencourt Ferreira, a velocidade com que surgem novas tecnologias e o risco de defasagem são algumas das principais preocupações da defesa. 

Hoje, nós vemos humanoides e já está se pensando no emprego e na intensificação da inteligência artificial. Este seminário é uma oportunidade de obtermos sinergia de cérebros, de recursos, de foco para enfrentamento de desafios”, avaliou.

A dependência externa também é motivo de atenção, explica o 7º Subchefe do Estado-Maior do Exército, General de Brigada Gelson de Souza, que participou do encontro. “Tecnologia crítica militar normalmente não se fornece. Os sistemas não tripulados sempre existiram, mas novas tecnologias permitiram que fossem usados de maneira mais eficiente agora e a maior parte delas o Brasil não domina”, alertou.

Segundo o General, apesar de ser ainda necessária a obtenção de sistemas estrangeiros, a Força tem condicionado essas aquisições à transferência de tecnologia. “É justamente para poder desenvolver uma tecnologia nacional e, em função disso, ser sustentável. No médio e no longo prazo, temos condições de ter esse meio em caso de uma necessidade futura e que esse suprimento se mantenha no médio e no longo prazo”, disse.

Essa também é a avaliação do Chefe da Sexta Subchefia do Estado-Maior da Aeronáutica, Major-Brigadeiro do Ar Frederico Casarino, que esteve presente ao evento. “A Força Aérea vislumbra estrategicamente como mais relevante o país obter a soberania de desenvolver seus próprios sistemas remotamente pilotados. Temos uma iniciativa em andamento via COPAC, para fomentar a nossa base industrial de defesa no desenvolvimento de um drone 100% nacional.”

Referências internacionais

O encontro promovido pelo Ministério da Defesa também buscou acessar experiências internacionais. Convidado para uma apresentação no último dia, o Diretor da Célula de Inovação e Experimentação Operacional de Veículos não Tripulados (CEOV) da Marinha Portuguesa, Capitão de Fragata Marco Guimarães compartilhou informações que explicam como o seu país tornou-se referência mundial no desenvolvimento de sistemas não tripulados.

A necessidade da criação da CEOV decorreu de uma identificação de lacunas operacionais que era importante mitigar e corrigir, mas que as respostas não eram encontradas junto da indústria. Havia problemas concretos dentro da Marinha que necessitavam de uma abordagem diferente, transformacional. Então, ela decidiu criar esse conhecimento e esse desenvolvimento interno como um agente catalisador que pudesse dar esse sinal e assumir o risco desse desenvolvimento”, contou.

Segundo o Diretor, está previsto o recebimento de 11 navios nos próximos quatro anos, com diferentes dimensões e capacidades, todos aptos a operar sistemas não tripulados. Um dos mais aguardados é o NRP “D. João II”, em construção na Romênia, que foi concebido para operar, de forma integrada e modular, sistemas não tripulados aéreos, de superfície e subaquáticos. “Isso é a forma que a Marinha identificou para se posicionar nesta nova gênese de conflitos que são os do nosso século 21”, resumiu.

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