Surpreendidos em uma emboscada durante uma operação de bloqueio no Rio Paraná, nove navios da Esquadra brasileira não apenas resistiram aos ataques da Marinha paraguaia. Eles protagonizaram um dos principais combates da Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870). Vencida naquele 11 de junho de 1865, a Batalha Naval do Riachuelo definiria os rumos do maior conflito armado da história da América do Sul.

Sob o comando do Chefe da Segunda Divisão Naval em Operações de Guerra, Almirante Barroso, a Fragata “Amazonas”, as Corvetas “Parnaíba”, “Beberibe”, “Jequitinhonha” e “Belmonte” e as Canhoneiras “Iguatemi”, “Araguari”, “Mearim” e “Ipiranga” ocupavam o Rio Paraná, próximo à região que pertencia à Argentina. A intenção era impedir o emprego das vias fluviais para abastecer as tropas paraguaias, que tentavam invadir o Brasil pelo estado do Rio Grande do Sul.

A Marinha paraguaia contava com oito navios a vapor e seis chatas – espécie de balsa, equipada com peças de artilharia pesada –, quando empreendeu o ataque. Ela pretendia surpreender a Esquadra brasileira antes do amanhecer, para que não tivesse tempo de reação. Porém, uma avaria em um de seus navios atrasou a investida e permitiu que fossem avistados pelos brasileiros, que tiveram tempo hábil de se defender e inutilizar a força naval inimiga.

Conheça os navios que contribuíram para a vitória brasileira na Batalha Naval do Riachuelo:

 

Fragata “Amazonas”

Era o navio-capitânia da Segunda Divisão Naval em Operações de Guerra, chefiada pelo Almirante Francisco Manoel Barroso da Silva. A Fragata “Amazonas” transportava 163 militares da Armada e 313 do 9º Batalhão de Infantaria da Polícia do Rio de Janeiro, quando subiu o Rio Paraná para comandar o bloqueio naval às forças inimigas. Possuía casco de madeira, era movida a vapor e armada com seis canhões.

O Comandante do navio, Capitão de Fragata Theotonio Raymundo de Brito, descreveu à época o ataque à “Amazonas” e a reação bem-sucedida ordenada por Barroso: “O navio suspendeu imediatamente, e seguimos rio abaixo (…): fomos recebidos, quando passávamos o Riachuelo, por um fogo horrível de baterias colocadas em terra, das chatas, dos vapores e de mais de mil homens colocados sobre o barranco, armados de fuzil (…). Subi o rio acima e fomos abalroando os vapores inimigos, conseguindo inutilizar três e meter a pique uma das chatas.”

Corveta “Parnaíba”

Embarcação de casco de madeira, propulsão mista – a vapor e a vela – e armada com sete canhões. Era guarnecida por 94 militares da Armada, 100 do Batalhão Naval e 132 do 9º Batalhão de Infantaria quando compôs a Divisão responsável por conter o avanço paraguaio no Rio Paraná. Foi abordada por três navios adversários a um só tempo, tendo a tripulação resistido no combate corpo a corpo até a chegada de apoio.

“[..]nessa luta heroica em que muitos jogavam as armas pulso a pulso, bastantes tinham sido as vítimas que com seu denodo concorreram para tornar memorável nos anais da Marinha brasileira o dia 11 de junho de 1865”, relatou na ocasião o Comandante, Capitão-Tenente Aurelio Garcindo Fernandes de Sá. Entre os que sucumbiram no cumprimento do dever estavam o Guarda-Marinha Greenhalgh e o Imperial Marinheiro Marcílio Dias, imortalizado como herói da Pátria anos depois.

Corveta “Beberibe”

Com casco de madeira, propulsão mista e armada com sete canhões, a Corveta “Beberibe” contava com 169 militares da Armada e 138 soldados do Exército. Mesmo sob ataque inimigo, o navio conseguiu reagir e apoiar a Corveta “Jequitinhonha”, que havia encalhado em um banco de areia e sofria intenso bombardeio das baterias paraguaias posicionadas às margens do Rio Paraná.

“Achando-se encalhado o vapor ‘Jequitinhonha’, sofrendo um fogo vivíssimo da bateria colocada em terra, segui a protegê-lo reunindo-me aos navios que se achavam próximos a ele, empregando-me com os mesmos, em fazer calar a bateria inimiga (...). À noite, passei fundeado um pouco acima do ‘Jequitinhonha’ com o ‘Ipiranga’ e o ‘Iguatemi’ para defendê-lo se fosse atacado”, narrou o Comandante do navio, Capitão-Tenente Bonifacio Joaquim de Sant’Anna.

Corveta “Jequitinhonha”

Esse navio de casco de madeira e propulsão a vapor era equipado com dois canhões e seis outras peças de artilharia. Transportava 109 militares da Armada e 160 do 1º Batalhão de Infantaria do Exército, quando compôs a Divisão chefiada pelo Almirante Barroso. Assim como todos os meios da Esquadra empenhados no bloqueio do Rio Paraná, tinha um calado – parte do casco submersa na água – de grandes proporções, inadequado para navegar em águas rasas.

O risco de encalhe era alto e foi o que aconteceu com a “Jequitinhonha” durante manobra de perseguição. Mesmo nessa situação e sob forte fogo inimigo, a Corveta conseguiu impor severas avarias sobre o inimigo “Paraguari” e repelir a abordagem dos vapores “Taquari”, “Salto” e “Marquês de Olinda”. Apesar de todos os esforços, não foi possível desencalhar o navio e, então, foi determinado por Barroso que se abandonasse e incendiasse a embarcação no dia 13 de junho.

Corveta “Belmonte”

Com casco de madeira, propulsão mista e armada com oito peças de artilharia, a Corveta “Belmonte” participou da missão de bloqueio às forças paraguaias no Rio Paraná. Além de sua tripulação de 115 militares, o navio transportava 98 integrantes da Polícia do Rio de Janeiro e do 1º Batalhão de Artilharia do Exército.

“Depois de ter passado toda a linha inimiga e quando voltava, procurando aproximar-me do navio chefe, que me parecia abordado por um navio inimigo, declarou-se fogo na coberta, produzido por uma bomba inimiga e, pouco depois, deram-me parte que havia muita água no porão; assim, vi-me obrigado a tocar atrás e, como a água aumentasse extraordinariamente a ponto de estar já dois pés acima do assoalho da coberta, encalhei o navio como único meio de salvá-lo”, relatou o Comandante, Primeiro-Tenente Joaquim Francisco de Abreu.

Canhoneira “Iguatemi”

Esse navio, de casco de madeira e propulsão mista, era tripulado por 100 militares da Armada e equipado com seis canhões. Durante o apoio à “Jequitinhonha”, que havia encalhado em um banco de areia e sofria ataques das baterias paraguaias às margens do Rio Paraná, o Comandante foi ferido por fogo de metralha — tipo de munição disparada por canhões de alma lisa — e o imediato morreu atingido por um projétil de artilharia minutos depois.

 

“Quando a Esquadra voltou de águas acima seguindo o arrojo da Fragata ‘Amazonas’, que investiu de proa sobre alguns vapores e chatas da esquadra inimiga, metendo-os a pique, esta canhoneira não tendo mais navio inimigo a combater, foi colocar-se junto ao vapor ‘Jequitinhonha’ que estava encalhado e sofria um fogo terrível de uma bateria colocada na barranca”, contou à época o Comandante, Primeiro-Tenente Justino José de Macedo Coimbra.

Canhoneira “Araguari”

Mesmo modelo da “Iguatemi” e, assim como ela, construída na Inglaterra, sob fiscalização do Comandante em Chefe das Forças Navais do Brasil da época, o Almirante Tamandaré. A Canhoneira “Araguari” também sofreu tentativa de abordagem dos vapores paraguaios, mas, ao contrário da Corveta “Parnaíba”, conseguiu repelir os ataques e causar danos aos inimigos.

 

“Navegando na popa da Fragata ‘Amazonas’ que galhardamente meteu a pique dois dos vapores inimigos, lançando-se de proa sobre eles e vendo que aí pouco me restava a fazer, investi sobre o ‘Paraguari’ contra o qual fizemos fogo de metralha, e depois deixando-o ao ‘Ipiranga’, subi em perseguição dos quatro restantes que a toda a força se escapavam rio acima”, relatou o seu Comandante, Primeiro-Tenente Antonio Luiz von Hoonholtz, na ocasião.

Canhoneira “Mearim”

Navio de casco de madeira e propulsão mista, possuía quatro obuseiros posicionados em bateria e dois montados em rodízio — estrutura montada no convés que permite o giro do canhão. Sua tripulação era composta de 124 militares. Foi o primeiro a perceber a aproximação das forças navais paraguaias, ao que seu Comandante mandou içar o sinal de “inimigo à vista”.

“Quando a esquadra chegou em frente à bateria de terra, abriu-se dali um fogo bem nutrido de artilharia. A ‘Belmonte’ rompeu águas abaixo, e pouco depois o ‘Amazonas’, seguido do ‘Beberibe’, em cujas águas navegou esta Canhoneira. Nesta ocasião, o fogo tornou-se vivíssimo de parte a parte (…). Minutos depois destacavam do grupo sete vapores e tentaram abordar esta Canhoneira, mas foram repelidos pelas repetidas cargas de artilharia e mosquetaria que vomitavam sobre eles os flancos da Canhoneira”, relatou o Comandante, Primeiro-Tenente Eliziario José Barboza.

 

Após evitar a abordagem inimiga, a “Mearim” conseguiu prestar apoio à Corveta “Belmonte” e, em seguida, à “Parnaíba”. “Passei próximo da ‘Belmonte’ que ia águas abaixo com a proa toda mergulhada e trazendo ela o sinal ‘as bombas não vencem a água que o navio recebe’, acompanhei-a para lhe dar socorro, no caso de ser tanta a água que não pudesse chegar sem reboque ao banco mais próximo, e, logo que tomou ela o banco em frente às ilhas do Cabral, dirigi-me à canhoneira ‘Parnaíba’, que descia desgovernada por ter avaria no leme”, narrou o Tenente.

Canhoneira “Ipiranga”

Foi o primeiro navio de guerra movido a hélice produzido no Brasil, no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Possuía casco de madeira, era movido a vapor e equipado com seis canhões e um obuseiro. Transportava uma tripulação de 114 homens, além de 69 militares da Polícia do Rio de Janeiro. Durante a Batalha Naval do Riachuelo, foi responsável por inutilizar os navios paraguaios “Paraguari” e “Salto”, além de uma das seis chatas – espécie de balsa rebocada pelos navios – que transportavam canhões e tropas de 30 a 40 homens.

Dias depois, o Comandante da ‘Ipiranga’, Primeiro-Tenente Alvaro Augusto de Carvalho, detalhou o ocorrido: “Às 9 horas a esquadra inimiga pelo nosso través já nos fazia fogo a que respondíamos com energia (...). A esquadra moveu-se. A ‘Belmonte’, que era testa de coluna, foi a primeira a inverter a linha de frente, e a ir rio abaixo a encontrar o inimigo. O navio chefe, independente da linha, fez o sinal para principiar o combate com qualquer dos inimigos com que mais facilmente se pudesse fazer, e depois sustentar o fogo que a glória é nossa.”

Os relatos dos Comandantes de cada navio, escritos nos dias subsequentes à Batalha Naval do Riachuelo, foram extraídos da Revista Marítima Brasileira, publicada em 1883. A experiência mostrou a necessidade de o País dispor de uma Esquadra vultosa e moderna para fazer frente a ameaças externas e resultou em mais investimentos no setor naval. Até o fim da Guerra, a MB já se tornara uma das mais poderosas do mundo, com mais de 80 navios armados.

 

Capa: Imagem meramente ilustrativa, criada com IA.

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Comentários

Paulo de Tarso… (não verificado) Qui, 11/06/2026 - 11:51

Qual fim tiveram esses navios?
Onde será possível ver esses quadros ?

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