Muito antes da formatura e do brevê que consagra o militar como Mergulhador de Combate, há uma jornada intensa e seletiva. O curso de Mergulhadores de Combate, porta de entrada para uma das mais especializadas vertentes das operações especiais da Marinha do Brasil (MB), é marcado por preparação rigorosa, pressão constante e uma construção gradual que vai além da capacidade física.

A formação é dividida em duas modalidades: para Oficiais, o Curso de Aperfeiçoamento de Mergulhadores de Combate para Oficiais (CAMECO); e para praças, o Curso Especial de Mergulhadores de Combate (C-Esp-MEC). Embora compartilhem a maior parte da formação, os Oficiais iniciam a jornada duas semanas antes, com as disciplinas de Processo de Planejamento Militar (PPM) e de Liderança.

Essa etapa inicial reflete uma realidade da carreira: o Oficial mergulhador de combate frequentemente assume, desde cedo, a liderança de destacamentos operativos. Por isso, precisa compreender como interpretar diretrizes, planejar operações e transmitir ordens com clareza e precisão à equipe.

Das operações anfíbias ao GRUMEC

A atividade de Mergulhador de Combate na MB teve início na década de 1960, quando militares brasileiros foram enviados aos Estados Unidos para realizar o curso de Underwater Demolition Team (UDT), voltado ao emprego em apoio às operações anfíbias. Atuando como força avançada, esses militares tinham a missão de reconhecer áreas de desembarque e neutralizar obstáculos nas praias antes da chegada das tropas. Atualmente, o curso evoluiu significativamente em relação ao antigo UDT, incorporando novas doutrinas, técnicas e capacidades ao longo das décadas, e passou a ser conhecido como Basic Underwater Demolition/SEAL (BUD/S).

A partir dessa experiência, foi criada, em 1970, a Divisão de Mergulhadores de Combate, na Base Almirante Castro e Silva.

Nos anos seguintes, novos intercâmbios internacionais, como a qualificação de militares na França, contribuíram para a consolidação de uma doutrina própria, que combinava operações subaquáticas e ações terrestres. Esse conhecimento resultou, em 1974, na realização do primeiro Curso Especial de Mergulhador de Combate no Brasil. 

Com a evolução da atividade e o aumento da demanda operacional, a estrutura foi ampliada até a criação do atual Grupamento de Mergulhadores de Combate (GRUMEC), em 1997, consolidando uma das capacidades mais estratégicas das operações especiais da Marinha.

Bastidores da preparação: onde tudo começa

Antes do início formal do curso, os candidatos passam por um rigoroso processo seletivo, que inclui testes físicos, exames psicotécnicos e Inspeção de Saúde. Os aprovados se apresentam, em geral, entre o fim de fevereiro e o início de março. 

A primeira fase do curso é a chamada fase zero, realizada no Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (CEFAN), cujo foco é a preparação física para o que está por vir. 

Sob a orientação de profissionais de Educação Física, os alunos seguem um programa progressivo de condicionamento, no qual treino, alimentação e descanso passam a ser elementos estratégicos. Ao final dessa fase, aplica-se um teste físico para avaliar se o candidato está apto a seguir nas atividades seguintes. 

 

 

Após a fase zero, os alunos seguem para o Centro de Instrução e Adestramento Almirante Áttila Monteiro Aché (CIAMA), onde começa, de fato, a formação do Mergulhador de Combate. Ao longo de cerca de 40 semanas, com término geralmente em dezembro, os militares são submetidos a instruções específicas, divididas em cinco fases:

A fase I introduz o mergulho autônomo com equipamento em circuito aberto, modelo convencional em que o mergulhador respira ar comprimido de um cilindro e expira o ar diretamente para o ambiente, criando bolhas. É o primeiro contato técnico com o ambiente subaquático. 

Na fase II, o foco muda para operações especiais em ambiente terrestre. Os alunos enfrentam instruções que incluem navegação terrestre, defesa pessoal, técnicas de combate, demolição, armamentos e comunicações. É uma etapa marcada pelo desgaste físico acentuado, com longos deslocamentos carregando pesados equipamentos. 

Foi nesse cenário, que o Cabo Cabral, formado na última turma, vivenciou um dos momentos mais difíceis do curso. 

Foi em uma missão de reconhecimento, eu estava levando uma metralhadora (MINIMI), pesando cerca de 7 kg. Além disso, eu já carregava uma mochila de aproximadamente 28 kg, em uma trilha muito íngreme. Minhas pernas falharam ao chegar ao final da trilha. Foi muito difícil, porém consegui perceber Deus me amparando, não me deixando parar. Também contei com a ajuda dos meus camaradas de turno, que amarraram um cabo na minha cintura e me puxaram até eu chegar ao topo da montanha. Sem Deus não teria conseguido”, relembrou. 

Já na fase III, considerada a essência da atividade, o ambiente aquático volta ao protagonismo. Os alunos aprendem a operar com equipamentos de mergulho em circuito fechado, tecnologia que não libera bolhas e permite ações discretas, característica fundamental nas operações especiais. Além disso, são ministradas disciplinas como operações anfíbias e operações especiais com submarinos.

Na fase IV, os militares participam de estágios de qualificação em diferentes regiões do País, explorando cenários como a Amazônia, Pantanal e ambiente de montanha, além de módulos específicos, como inteligência operacional. 

Ao final, uma grande missão coloca à prova tudo o que foi aprendido. Nela, os próprios alunos planejam e executam uma operação completa, sendo avaliados em todos os aspectos: técnicos, táticos e comportamentais.

Preparação mental

Apesar da exigência física elevada, os instrutores são categóricos: o maior desafio do curso é psicológico. 

A rotina intensa impõe desgaste contínuo, exigindo autocontrole, resiliência e capacidade de decisão sob pressão. A preparação mental é decisiva para o sucesso, como destaca o Cabo Cabral. 

O mental é mais importante que o corpo. Não adianta pensar muito à frente, seja no início ou até mesmo na fase final do curso. O foco deve estar sempre no presente: um dia de cada vez, uma etapa de cada vez. É assim que se chega ao último dia.” 

A taxa média de formação gira em torno de 30%. A maioria das desistências ocorre nas fases iniciais, quando o impacto da exigência é mais intenso. Aqueles que permanecem tendem a formar um grupo mais coeso e resiliente.

Durante todo o curso, os alunos contam com suporte de equipes multidisciplinares, incluindo médicos, psicólogos, pedagogos e assistentes sociais.

O curso de Mergulhadores de Combate não forma apenas especialistas, mas seleciona perfis. Mais do que habilidade técnica, são avaliados atributos como ética, lealdade, disciplina, espírito de equipe e controle emocional. O objetivo é garantir que, ao final, o militar esteja apto a integrar uma força de alta confiabilidade. 

Para o Encarregado da Escola de Operações Especiais, Capitão-Tenente Victor Hugo: “O curso é desenhado para ir muito além do preparo físico. Aqui, buscamos identificar quem consegue manter o desempenho sob pressão constante, tomar decisões com lucidez no limite do cansaço e, acima de tudo, atuar com espírito de equipe.”

Após a formatura: o início de uma nova fase

A conquista do brevê está longe de representar o fim da formação. Após se formarem no CIAMA, os militares seguem para o GRUMEC, onde passam por um período de nivelamento antes de integrarem equipes operativas. 

Essa etapa inicial já evidencia uma nova realidade: as habilidades do Mergulhador de Combate recém-formado ainda estão em processo de desenvolvimento. Durante cerca de três anos, ele percorre a chamada Especialização do Combatente, um ciclo contínuo de cursos e qualificações complementares que ampliam suas capacidades operacionais. 

Entre essas formações, destacam-se o Curso Básico Paraquedista e o Curso Especial de Salto Livre, que conferem ao militar a capacidade de infiltração por aeronave, ampliando significativamente o leque de emprego nas operações especiais.

Além disso, alguns militares seguem para a área de Desativação de Artefatos Explosivos (DAE), enquanto outros se qualificam em tiro de precisão (Sniper) ou em atendimento pré-hospitalar tático, o chamado Tactical Combat Casualty Care (TC3), voltado à prestação de socorro em ambiente de combate. 

Entre as lições que permanecem após o curso, o Cabo Cabral resume: 

Resiliência, pontualidade e espírito de corpo. Proatividade e atenção total aos detalhes. No nosso meio, o erro não é uma opção, pois o detalhe é a linha tênue entre a vida e a morte.” 

Esse processo contínuo de capacitação evidencia que ser um Mergulhador de Combate vai além da formação inicial: trata-se de uma carreira de constante aperfeiçoamento, na qual o militar agrega competências ao longo do tempo, até atingir plena maturidade operacional. 

Os militares formados no GRUMEC atuam em diversas frentes: operações anfíbias, salto de paraquedas, ações contraterrorismo, retomada de plataformas e navios, apoio à fiscalização marítima e até missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). 

Esse amplo espectro de atuação ajuda a explicar o nível de confiança depositado nesses militares. Nesse sentido, o Capitão-Tenente Victor Hugo reforça: “Muita confiança é depositada nos Elementos de Operações Especiais, pois estes são empregados para a resolução dos problemas mais complexos e sensíveis, nas situações mais críticas e de elevado risco, onde o possível efeito negativo das suas ações em combate pode comprometer todo o sucesso da operação, podendo causar impactos relevantes no nível estratégico e até político”, finalizou.

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