Compromisso, dedicação e coragem são valores que unem os personagens históricos que dão nome às Fragatas da Classe “Tamandaré”. Desde heróis do período colonial ao Patrono da Marinha, essas embarcações carregam não apenas tecnologia de ponta, mas também são referências que ajudam a explicar a identidade naval brasileira.

Os nomes que batizam as embarcações do Programa Fragatas da Classe “Tamandaré” remetem a personalidades centrais da formação da Marinha do Brasil (MB) e da defesa do território nacional. Jerônimo de Albuquerque, Cunha Moreira, Mariz e Barros e Tamandaré marcaram a história naval ao colocar o serviço à pátria acima de seus próprios interesses. Em diferentes épocas, esses homens estiveram à frente de conflitos decisivos, tornando-se referências para as gerações futuras.

 
Tamandaré: o Patrono da Marinha e a herança naval

A primeira embarcação do programa, a Fragata “Tamandaré” (F200), foi lançada ao mar no TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí (SC), em 9 de agosto de 2024. O navio homenageia Joaquim Marques Lisboa, o Marquês de Tamandaré, Patrono da MB, e simboliza a proposta do Programa Fragatas Classe Tamandaré: unir a herança histórica da Força Naval brasileira às capacidades operacionais voltadas para o futuro.

Nascido em 1807, no Rio Grande do Sul, Tamandaré construiu uma trajetória profundamente ligada aos principais acontecimentos do período imperial. Desde jovem, destacou-se como um hábil marinheiro e um audacioso comandante, ao participar da Guerra da Independência e dos conflitos internos que marcaram o período regencial. Sua atuação ganhou uma expressiva projeção durante a Guerra do Paraguai (1864–1870), quando comandou a Esquadra Imperial Brasileira, revelando um aguçado senso estratégico e especial atenção à formação profissional e moral dos marinheiros. Antes disso, Tamandaré já havia se destacado em outros conflitos, como a Guerra da Cisplatina (1825–1828), ocasião em que assumiu seu primeiro comando naval, à frente da Escuna “Constança”, aos 18 anos de idade.

O primeiro navio construído no Brasil recebeu seu nome: o Encouraçado "Tamandaré". Ainda em vida, ele teve a honra de ver outra embarcação da Marinha também batizada em sua homenagem — o Cruzador "Almirante Tamandaré". Em reconhecimento à sua trajetória exemplar, foi consagrado Patrono da MB, e a data de seu nascimento, 13 de dezembro, passou a ser celebrada como o Dia do Marinheiro. Como forma de perpetuar seu legado, seu nome foi escolhido para designar toda a classe das novas Fragatas brasileiras.

De acordo com a Guarda-Marinha (Temporária - Historiadora) Fabiane Cristina de Freitas Assaf Bastos, Mestre em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança Internacional, preservar a imagem de Tamandaré é essencial para a Força. Segundo ela, o herói naval teve atuação destacada em prol da consolidação do Brasil como nação soberana. “Ele deixa seu exemplo de bravura, altivez e amor à pátria para as novas gerações de marinheiras e marinheiros”, ressalta.

 
Jerônimo de Albuquerque: defesa do território no período colonial

Outra figura de destaque, especialmente no contexto da defesa do território contra invasões estrangeiras no século XVII, foi Jerônimo de Albuquerque. O primeiro brasileiro nato a comandar uma frota naval empregada em operações militares, hoje dá nome a Fragata F201, a segunda do Programa, lançada ao mar em 2025.

Jerônimo de Albuquerque teve o seu valor reconhecido ao expulsar os franceses do Maranhão, em 1615. Na época, comandava uma flotilha formada por quatro embarcações a vela, conduzindo cerca de 100 homens, ocasião em que os europeus procuravam negociar com os índios do litoral e tentavam se estabelecer na região, atraídos pelos produtos locais e impulsionados pela alta demanda da indústria têxtil na França.

Filho de um português de mesmo nome e da índia tupi Maria do Espírito Santo Arcoverde, falava fluentemente o tupi e o português. Por sua capacidade de articular interesses portugueses com a cultura indígena e ter um aguçado senso de liderança - qualidade herdada de seu pai - era capaz de conectar os dois mundos. Após o conflito, passou a responder pelo Forte dos Reis Magos, erguido pelos portugueses na foz do Rio Grande, em Natal, um dos símbolos históricos da fundação da cidade, sendo recompensado pela Coroa com o cargo de primeiro Governador do Maranhão.

Ao longo de sua jornada, fundou um povoado, estabeleceu uma política de valorização das terras e amenizou os conflitos entre os potiguares e portugueses, possibilitando a ampliação da colonização na região. Por seu desempenho, alcançou amplo prestígio na América. Sua trajetória demonstra que a defesa marítima sempre esteve no centro da preservação da soberania nacional desde os primeiros momentos da formação do Brasil.

Para a historiadora Fabiane, Jerônimo de Albuquerque teve uma participação decisiva para o Brasil. 

Atuando em momentos-chave para a consolidação do País, fez reconhecimento de pontos da costa ocupados pelos franceses. Depois, comandou o grupo português e indígenas aliados na defesa do Forte de Santa Maria, em uma luta contra tropas francesas que ficou conhecida como ‘Batalha de Guaxenduba’, confronto que terminou com a vitória luso-brasileira e se tornou um marco da resistência no período colonial”, explica.

 
Cunha Moreira: a construção da Marinha brasileira

Assim como Jerônimo de Albuquerque, acumulando experiências e percorrendo postos ao longo da carreira, a trajetória de Luís Cunha Moreira também é extremamente relevante, dando nome, hoje, à Fragata F202 - ainda em construção. Cunha Moreira se destacou pela participação na conquista da Cisplatina e na vitória da Revolução Pernambucana em 1817. Baiano, nascido em 1º de outubro de 1777, foi para Portugal para completar os estudos e ingressou na Armada Real em 1795. Em seus diversos embarques, participou da Esquadra-Luso Britânica, responsável pela mudança da Família Real portuguesa, e foi o primeiro militar genuinamente brasileiro a exercer o cargo de Ministro da Marinha.

No exercício de funções estratégicas, Cunha Moreira ocupou diversos cargos, entre eles o de Comandante da Academia Nacional e Imperial dos Guarda-Marinha, atual Escola Naval. Entretanto, enfrentou seu maior desafio nas Campanhas da Independência, quando precisou conduzir o processo de formação e organização da incipiente Armada Nacional e Imperial como Ministro da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha.

Em meio às incertezas do período, liderou a Comissão encarregada de avaliar o apoio dos Oficiais portugueses que permaneceram na Corte à causa nacional. Diante do número reduzido e da lealdade considerada incerta desses militares, optou pela contratação de estrangeiros, que se tornaram elementos-chave da Força Naval, como o Almirante Lord Thomas Cochrane, então Comandante-em-Chefe da Esquadra, além de John Taylor e John Grenfell. Mesmo após a sua ida para a reserva, Cunha Moreira continuou como Conselheiro de Guerra, demonstrando compromisso com a defesa e aprimoramento das Forças Armadas.

Ele foi fundamental para o processo de consolidação da Independência política brasileira. Na sua gestão passou a ocorrer o funcionamento regular, com a coordenação de seus diferentes órgãos, do mecanismo administrativo da Marinha efetivamente brasileira, tendo tido ação fundamental na história da instituição e na afirmação da soberania nacional”, comenta a historiadora.

 
Mariz e Barros: o heroísmo em defesa da Pátria

Outro nome que simboliza bravura e serviço é o de Antônio Carlos Mariz e Barros, que dá nome a quarta Fragata, a F203, também em construção. Destemido Primeiro-Tenente da Marinha Imperial, iniciou seu caminho profissional em 1849, construindo uma carreira marcada pela disciplina e coragem. Teve uma vida curta, mas é respeitado na história do País devido a sua conduta como Comandante do Encouraçado “Tamandaré” durante a Guerra do Paraguai.

Carioca, filho do Vice-Almirante Joaquim José Ignácio, o Visconde de Inhaúma, e Maria José de Mariz e Barros, nasceu em 1835. Servia a bordo da Canhoneira “Jequitinhonha” em 11 de junho de 1865 e, mesmo ferido, permaneceu à frente da tripulação contribuindo para a resistência brasileira no combate.

No mesmo ano, passou a integrar a 2ª Divisão da Esquadra em Operações de Guerra, participando das operações ofensivas contra as fortificações paraguaias ao longo do rio Paraguai. Durante o combate a bordo do “Tamandaré”, foi gravemente ferido após o navio ser atingido por um disparo de canhão inimigo, o que ocasionou sua morte em 1866.

Mariz e Barros participou de várias missões de reconhecimento em torno do Forte de Itapiru. E já havia se destacado na Campanha Oriental, durante o cerco e tomada de Paissandu, quando assumiu o comando do Encouraçado Tamandaré e seguiu para a cidade de Corrientes, o que o tornou alvo preferido do inimigo” afirma a Guarda-Marinha Fabiane. Segundo ela, sua memória permanece viva na MB, que deu seu nome a navios, entre contratorpedeiros e o Encouraçado da Classe “Mariz e Barros”, preservando seu exemplo como referência de honra e dedicação ao serviço naval. “Foi um exemplo de coragem, altivez e bravura por ter defendido a nação com o sacrifício da própria vida”, conclui.

 

Visão geral do programa

Ao reunir nomes históricos em uma mesma classe de navios, o Programa Fragatas Classe “Tamandaré”, que está incluído no Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), do Governo Federal, transforma cada navio em um elo vivo. Assinado em março de 2020, o contrato é gerenciado pela Empresa Gerencial de Projetos Navais (EMGEPRON), em uma parceria entre a MB e a SPE Águas Azuis, formada pela TKMS, pela Embraer Defesa & Segurança e pela Atech, e já marcou avanços significativos nas atividades construtivas. De acordo com o cronograma previsto, a quarta e última embarcação (F203) está em fase de fabricação.

O projeto busca fortalecer a soberania nacional e impulsionar a indústria de defesa do País, estimulando o desenvolvimento da estrutura produtiva necessária à construção dos navios em território brasileiro. Além disso, tem a missão de marcar a presença da MB na Amazônia Azul, contribuindo para o controle e proteção das linhas de comunicação marítima.

As Fragatas Classe “Tamandaré” são navios escolta com alta capacidade de combate, capazes de atuar em todos os ambientes de guerra. Essas embarcações carregam histórias e reafirmam o papel da Força Naval na defesa dos interesses do País. Assim, ao navegar pelos mares, as Fragatas seguem levando não apenas tecnologia de ponta, mas também a memória e os valores dos heróis que ajudaram a construir a história marítima do Brasil.

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Comentários

Edson Carlos P… (não verificado) Qui, 29/01/2026 - 15:53

Bravo zulu viva a marinha do Brasil Tudo pela pátria

ANDERSON M AMOEDO (não verificado) Qui, 29/01/2026 - 15:57

Importante saber a história da nossa Marinha
Com tantos desafios para o futuro
É imprescindível conhecer nosso passado
E saber da vida eterna também... Pra quem crê
ADSUMUS

Avelino José Claro (não verificado) Qui, 29/01/2026 - 20:43

Que maravilha!
Quanta historia destes herois brasileiros que ficam guardadas em livros e museus sem a devida divulgação!
E os maravilhosos navios de guerra, batizados com os nomes desses herois! Muito obrigado pela oportunidade de conhecer esses Tezouros!

ABIMAEL Alves… (não verificado) Sáb, 31/01/2026 - 20:13

Servi a nossa Matinha de Guerra do Brasil, de 1970 a1975. Fiz concurso no Rio de Janeiro, em Janeiro de1970. Sou de uma turma extra do Quartel de
Marinheiros. Fui primeiro lugar da turma, e por isso fiz a 12a viagem de ouro no navio Escola Custódio de Melo, em 1970
Foi a maior experiência de vida até hoje. Estive em 12 países. Deixei a Matinha porque eu tinha um ideal que eu queria implementar com rapidez; estudar Economia. Pedi baixa em junnho de 1975.
Vim pra Recife, me formei em Economia e também em Comunicação . Fui tralhar em banco durante 25 anos até me aposentar em 2000. Sou um homem realizado. Detalhe; até hoje pouca gente me conhece como bancário. Me chamam de Fragata, tamanha é minha influência e interação com a Matinha. Isso me dar muito orgulho. Tenho carteiras da Marinha é da Aeronáutica, onde servi por quatro anos. Gostaria muito, um dia ser convidado pra dar palestras a marinheiros em escolas, de aprendizes. Aqui em Recife tem uma . Uso um boné da Marinha, sempre que saio ou estou trabalhando. Mas minhas veias corre o sangue de um Valente marujo. Não posso
esconder, que meu porte me denuncia. Dizem logo: esse Senhor é militar da Marinha!!!

Carolina (não verificado) Seg, 02/02/2026 - 00:32

Bravo zulu, viva a marinha!

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