Uma escova dental capaz de alertar o usuário quando a força aplicada durante a escovação ultrapassa o limite considerado ideal, utilizando uma tecnologia simplificada e de baixo custo. Essa é a proposta de um projeto inovador desenvolvido pela Marinha do Brasil (MB), por meio da Odontoclínica Central da Marinha (OCM), que busca prevenir danos aos dentes e à gengiva decorrentes da aplicação excessiva de força durante a escovação.

Desenvolvida pela Assessoria de Inovação e Tecnologia da OCM, a tecnologia surgiu a partir da identificação de problemas recorrentes observados na prática clínica odontológica. O projeto é coordenado pela Capitão de Fragata (Dentista) Teresa Cristina Pereira de Oliveira e pelo Capitão de Corveta (Dentista) Rafael Matheus Lima, e foi idealizado pelo Primeiro-Tenente (Temporário-Dentista) Humberto Jácome Santos.

O desenvolvimento dessa escova dental inovadora foi motivado pela necessidade de criar soluções práticas e acessíveis para problemas recorrentes na saúde bucal da comunidade Naval e da população em geral”, explicou a Capitão de Fragata Teresa Cristina.

Segundo a coordenadora, a equipe de pesquisadores identificou alta prevalência de lesões cervicais não cariosas, caracterizadas pelo desgaste da estrutura dentária próximo à gengiva, e recessões gengivais não inflamatórias, que correspondem à retração da gengiva sem associação com processos inflamatórios, entre militares e civis atendidos pela Marinha. Essas alterações, associadas ao desgaste dos dentes e à retração gengival, representam um desafio relevante para a saúde bucal. “Embora ambas as alterações tenham causa multifatorial, um dos principais fatores associados é a escovação inadequada, especialmente quando realizada com aplicação de força excessiva sobre os tecidos bucais. Assim, a escova foi desenvolvida para auxiliar no controle dessa força durante a higiene oral, contribuindo para a redução desses agravos”, afirmou.

Diferentemente dos modelos convencionais com haste rígida disponíveis no mercado, a escova desenvolvida pela Marinha, além de possuir haste flexível, possui um mecanismo capaz de sinalizar ao usuário quando a força aplicada ultrapassa o limite considerado seguro para os tecidos dentários e gengivais.

“Na prática clínica, orientamos os pacientes a evitarem o uso de força excessiva durante a escovação; no entanto, esse controle depende, em grande parte, da percepção individual, o que pode dificultar sua aplicação no dia a dia”, destacou a coordenadora.

Para solucionar essa limitação, o dispositivo foi projetado para emitir alertas sonoros, luminosos e/ou vibratórios em tempo real. “Esses sinais orientam o usuário a reduzir a intensidade da escovação, promovendo uma higienização mais segura e controlada, especialmente em pacientes odontopediátricos, visto que o feedback imediato fornecido pelo dispositivo favorece a aprendizagem de um padrão adequado de escovação, atuando como um mecanismo de modificação comportamental baseado nos princípios do condicionamento operante, amplamente reconhecido pela psicologia comportamental”, explicou.

O parâmetro inicial adotado pela equipe foi o valor padrão utilizado na maioria dos estudos laboratoriais, correspondente a aproximadamente 2 Newtons (N) de força, considerado seguro para a higienização oral. “Quando esse limite é ultrapassado, há aumento do risco de efeitos deletérios, como desgaste do esmalte dentário e exposição da raiz. Como consequência, essas condições podem impactar negativamente a qualidade de vida dos pacientes, que podem apresentar sintomatologia dolorosa, decorrente da sensibilidade dentinária, além de comprometimentos estéticos e funcionais ao longo do tempo”, reforçou a coordenadora.

Tecnologia acessível, sustentável e inclusiva

Em comparação às escovas elétricas equipadas com sensores de força, que também permitem o controle da pressão exercida durante a escovação, a Capitão de Fragata Teresa Cristina destaca que esses dispositivos apresentam custo elevado, o que restringe seu acesso a grande parte da população. 

A proposta do protótipo desenvolvido por nossa equipe de pesquisa é democratizar esse benefício já presente nas escovas elétricas por meio de uma inovação tecnológica baseada na utilização de um sistema mecânico funcional simplificado e que utiliza matéria-prima de baixo custo. Essa abordagem favorece a redução dos custos de produção, possibilitando a oferta de um produto com potencial eficácia comparável, porém com maior alcance social e preço mais acessível, possivelmente próximo ao de uma escova dental convencional”, frisa.

Além da acessibilidade, o projeto também prioriza a inclusão e a sustentabilidade. “O sistema de sinalização foi desenvolvido de forma inclusiva, combinando alertas luminosos, vibratórios e sonoros, o que possibilita sua utilização por pessoas com deficiência visual e auditiva. Ademais, o protótipo foi concebido para uso prolongado, requerendo apenas a substituição periódica da cabeça com cerdas (refil) após seu desgaste, reduzindo o descarte de materiais e contribuindo para a sustentabilidade ambiental”, ressaltou a Capitão de Fragata Teresa Cristina.

Parcerias e próximos passos

A tecnologia já foi registrada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) e está em fase final de desenvolvimento de um protótipo funcional. O projeto conta com a parceria do Centro Tecnológico do Corpo de Fuzileiros Navais (CTecCFN), responsável pelo suporte técnico-laboratorial em impressão 3D, além de apoio financeiro da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

Após a conclusão do protótipo, a tecnologia será disponibilizada no site da OCM, por meio de seu Núcleo de Inovação Tecnológica, como uma oferta tecnológica, disponível neste link, para que empresas do setor odontológico possam participar do processo de licenciamento para futura produção e comercialização.

“O projeto encontra-se em pleno andamento, com resultados exitosos e forte incentivo à divulgação científica com estudos clínicos e laboratoriais previstos a serem realizados em parcerias já estabelecidas com pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP-UNICAMP). Destaca-se, ainda, que a tecnologia já apresenta elevada aceitabilidade entre os profissionais da Odontologia, evidenciando o seu grande potencial de inserção no mercado”, enfatizou a coordenadora.

Idealizada em 2023, durante o processo de implantação da OCM como Instituição de Ciência e Tecnologia da MB, a iniciativa vem sendo fortalecida por meio de apoio institucional e incentivo à pesquisa, consolidando o investimento da Força em inovação aplicada à saúde.

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