Na última quarta-feira (10), a Fundação Museu da Imagem e do Som (FMIS), no Rio de Janeiro, recebeu o centenário ex-combatente da Marinha do Brasil (MB), Primeiro-Tenente (Reserva) José Osório de Oliveira Filho. Convidado para integrar a série “Depoimentos para Posteridade”, programa de história oral criado em 1966 para preservar a memória de grandes personalidades nacionais, Osório passa a integrar um acervo que reúne nomes como Pixinguinha, Clarice Lispector, Fernanda Montenegro, Antônio Carlos Jobim, Pelé e Vinicius de Moraes.

Nascido em 1923, no Rio Grande do Norte, José Osório mudou-se sozinho para o Rio de Janeiro aos 16 anos, em busca de melhores oportunidades. Ingressou na Marinha pela Escola de Aprendizes-Marinheiros Almirante Batista das Neves e, durante a Segunda Guerra Mundial, serviu a bordo do Encouraçado “São Paulo”, atuando na Artilharia Antiaérea. Mais tarde encontrou sua vocação como submarinista. Por sua dedicação, bravura e desempenho profissional, ao ser transferido para a reserva, alcançou o Oficialato. Posteriormente, foi agraciado com a Medalha Heróis da Batalha do Atlântico, a Medalha Mérito Tamandaré e outras condecorações.

Segundo o presidente da FMIS, Cesar Miranda Ribeiro, registrar o depoimento do Primeiro-Tenente (Reserva) Osório é preservar um capítulo essencial da memória nacional. “A importância da Marinha do Brasil se faz presente quando percebemos que temos grandes vultos que participaram da Segunda Guerra Mundial, mas que, muitas vezes, são pouco lembrados. Precisamos enaltecer essas histórias”, destacou.

Para o doutor em História e pesquisador da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM), Primeiro-Sargento Robert Wagner Porto da Silva Castro, a trajetória do centenário submarinista evidencia a relevância da atuação naval no conflito.

“Existe uma memória muito associada à Força Expedicionária Brasileira (FEB), mas a Marinha também teve papel decisivo. Os marinheiros permaneceram aqui, em uma vigilância permanente e diuturna. Como pudemos ver durante a entrevista, assim que ingressou na Força, José Osório foi com o Encouraçado ‘São Paulo’ para Pernambuco, para compor a defesa do Porto de Recife. Não podemos esquecer que foi no Nordeste que o submarino alemão, em agosto de 1942, em um espaço de cinco dias, torpedeou seis navios brasileiros, levando mais de 500 vidas”, relembra o historiador.

A importância de registrar e popularizar histórias como a do centenário Osório está em transformar memórias individuais em patrimônio coletivo, como afirma o doutor em História Wagner Bueno, também pesquisador da DPHDM e coordenador do Laboratório de História Oral e do Projeto Memória. “O que a gente chama de ‘Batalha do Atlântico’, da qual o Tenente Osório participou, foi fundamental para impedir o que chamamos de bloqueio das comunicações marítimas. Era que os submarinos alemães estavam tentando fazer, impedindo o tráfego de navios”, ressalta.

 
Um pouco de 102 anos de história

“Peguei um Ita no Norte, pra vim pro Rio morar. Adeus meu pai, minha mãe. Adeus Belém do Pará.” A célebre canção de Dorival Caymmi poderia muito bem ter Macau, no Rio Grande do Norte, em seus versos. Isso porque ela também traduz a trajetória de José Osório de Oliveira Filho, nordestino, sonhador e determinado. Criado em uma família de nove irmãos, órfão de mãe e acostumado ao trabalho desde cedo, José Osório não se deixou intimidar pelo desafio de viver longe de casa, sozinho, em busca de novas oportunidades. Durante a entrevista, o filho, Osório Neto, recordou a música, ele é o responsável por reunir grande parte da história de seu pai, por meio de fotos, documentos e registros.

Foi a bordo de um navio da classe “Ita” — embarcação a vapor pertencente à Companhia Nacional de Navegação Costeira — que o jovem Osório deixou o Rio Grande do Norte rumo ao Rio de Janeiro, onde passaria a morar com conhecidos de seu pai. Esses navios, todos batizados com nomes de origem tupi-guarani iniciados pela sílaba Ita, foram responsáveis por transportar cargas e passageiros de norte a sul do Brasil durante a primeira metade do século XX. Para o centenário José Osório, aquela travessia não representou medo, mas entusiasmo: era sua primeira viagem de navio.

Curioso e aplicado, Osório dividia o tempo entre o trabalho em uma loja de camisas no centro da capital e os estudos. Foi assim que tomou conhecimento do concurso para a Escola de Aprendizes-Marinheiros Almirante Batista das Neves, onde hoje funciona o Colégio Naval, em Angra dos Reis (RJ). Movido pelo sonho de um dia conhecer a Inglaterra, passou a estudar inglês por conta própria, dedicação que acabou sendo decisiva para sua aprovação na prova da Marinha. Anos mais tarde, já servindo na Força, a vida lhe proporcionaria a realização desse desejo: em missão oficial, finalmente conheceu a Inglaterra.

Dentre as muitas histórias contadas durante o programa, José Osório recorda um episódio marcante vivido na década de 1950, quando estava a bordo do Navio-Escola “Almirante Saldanha”, em uma viagem de instrução de Guardas-Marinha. Durante a travessia entre a Suécia e a Noruega, a embarcação enfrentou uma forte tormenta que quase a levou a pique. Apesar do risco, a lembrança que guarda com mais carinho é a da vida a bordo: “O bom do navio é o trabalho em conjunto”, relembra, destacando a importância da camaradagem entre os companheiros.

O ex-combatente lembra também do período em que serviu na Base Almirante Castro e Silva, do Comando da Força de Submarinos, na Ilha de Mocanguê (RJ). Foi ali que descobriu sua verdadeira vocação: a de submarinista. Embora atuasse como operador da Estação Rádio da Base, integrava as tripulações dos submarinos sempre que necessário, participando de missões no Brasil e no exterior. Esteve, inclusive, na comissão brasileira que viajou aos Estados Unidos para receber os submarinos posteriormente rebatizados como “Humaitá” (S14) e “Riachuelo” (S15).

Encerrada a carreira militar, Osório trilhou novos caminhos, mas nunca deixou de reconhecer a importância da instituição que moldou sua vida: “A Marinha foi minha casa, foi tudo para mim”, afirma. Após deixar a Força, atuou como gestor administrativo em diferentes empresas, até descobrir uma nova paixão — a apicultura — tornando-se um dos grandes produtores de mel de Niterói. Incansável, também dedicou parte de sua vida ao voluntariado na igreja, atividade que exerceu até os 90 anos. Hoje, aos 102, olha para trás com gratidão e destaca: “faria tudo novamente.”

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Comentários

Peniche (não verificado) Sáb, 13/09/2025 - 13:50

Pelo que entendi era telegrafista, assim com Eu. Grande honra ser telegrafista e submarinista da MB. Carreira espetacular. Parabéns ao Dr. Osório e obrigado pelo serviço e pelo exemplo.

Alessandra Ass… (não verificado) Qua, 12/11/2025 - 12:30

Rio de Janeiro com SEDEX.
Boa tarde Alessandra parabéns muitas felicidades 🎂.

Harin soares d… (não verificado) Dom, 14/09/2025 - 11:17

Heróis anônimos, meu tio Adelmar Soares a bordo do navio Vital de Oliveira afundado por submarino em cabo frio, campeão de natação conseguiu salvar alguns militares, não aguentando mais se afogou.

Ronald (não verificado) Dom, 14/09/2025 - 17:26

Tem minha continência, parabéns pela história, bons ventos e mares tranquilos te guiem, forte abraço irmão de farda.

Dario Martins … (não verificado) Seg, 15/09/2025 - 11:17

A minha melhor continência.

Ivan (não verificado) Seg, 02/03/2026 - 15:04

Tive a honra de ser convidado para ser o preletor do culto dos 100 anos de aniversário do nosso herói José Osório na Primeira Igreja Batista de Niterói. Minha continência!

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