Em meio à Copa do Mundo, cada partida da Seleção Brasileira também desperta memórias que vão além das quatro linhas. Uma delas une Brasil e Haiti em uma história marcada pelo futebol, pela cooperação internacional e pela atuação das Forças Armadas brasileiras em missões de paz.
Foi justamente um reencontro entre as duas seleções no Mundial que trouxe à tona uma trajetória iniciada há mais de duas décadas.
Filadélfia, Estados Unidos. O placar foi objetivo: Brasil 3 x 0 Haiti. Matheus Cunha marcou duas vezes e Vinícius Júnior completou a vitória brasileira. Desta vez, o jogo foi válido pela Copa do Mundo, mas Brasil e Haiti não se encontraram apenas em uma tabela do Mundial. Há pouco mais de duas décadas, os dois países protagonizaram um encontro que ultrapassou as fronteiras do futebol. Em 18 de agosto de 2004, uma Seleção Brasileira que reunia Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos, Gilberto Silva e outros campeões do mundo desembarcou em Porto Príncipe, capital do Haiti, para disputar o chamado Jogo da Paz.
Naquele momento, o Brasil chegava ao país caribenho como o atual campeão mundial, dois anos após a conquista do pentacampeonato. Ostentando o troféu da Copa do Mundo, a Seleção foi recebida por uma multidão que acompanhou seu trajeto entre o aeroporto de Porto Príncipe e o estádio Sylvio Cator.
O Brasil venceu por 6 a 0. O resultado, porém, não foi o que permaneceu na memória haitiana. O que ficou foram as imagens de uma população que tomou as ruas, subiu em muros e se concentrou nos arredores do estádio para tentar ver de perto os jogadores brasileiros. Em um país submetido a forte instabilidade política, violência armada e insegurança social, o futebol ofereceu algumas horas de alegria coletiva.
Não foi a solução para os dramas do Haiti - e nenhuma partida poderia sê-lo - mas aquele jogo ajudou a aproximar dois países que, nos anos seguintes, passariam a compartilhar uma relação marcada pela ajuda humanitária, pela presença militar brasileira e por histórias de vida que raramente aparecem nos relatórios oficiais.
Para o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Virgílio Arraes, a diplomacia recorre a diferentes formas de cooperação para aproximar sociedades e reduzir tensões entre Estados. Nesse repertório, o esporte ocupa lugar relevante por sua capacidade de mobilização e pelo alcance simbólico de eventos como Copas do Mundo e Jogos Olímpicos, que reúnem públicos de diferentes países em torno de uma experiência comum.

Na avaliação do professor, o protagonismo internacional do futebol brasileiro tornou natural o uso desse capital simbólico para estreitar os laços com o Haiti em agosto de 2004. O Jogo da Paz, portanto, não se limitou a um amistoso: integrou uma estratégia de aproximação entre os dois países em um momento de instabilidade política e social no país caribenho.
No mesmo ano, a Organização das Nações Unidas criou a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti, a MINUSTAH. O Brasil assumiu o comando do componente militar da operação, que reuniu integrantes da Marinha, do Exército e da Força Aérea Brasileira até 2017.
A missão coincidiu com um dos períodos mais duros da história recente do Haiti. Além da crise política e da atuação de grupos armados, o país enfrentou, em 2010, um terremoto que devastou Porto Príncipe, provocando perdas humanas em escala dramática e aprofundando uma emergência humanitária já existente.
Foi nesse ambiente que o General de Divisão Luiz Guilherme Paul Cruz comandou a força militar da MINUSTAH, de abril de 2010 a março de 2011, durante uma fase crítica da resposta internacional à tragédia.
O ano de 2010 foi marcado pelo forte terremoto que atingiu Porto Príncipe, causando enormes perdas humanas e materiais. A MINUSTAH, em particular o componente militar, foi demandada ao máximo na sua capacidade e correspondeu plenamente. O contingente brasileiro esteve presente nas áreas de maior impacto. Com muita habilidade e contando com o apoio vindo do Brasil, manteve a estabilidade, favoreceu a ajuda humanitária e salvou inúmeras vidas. Os haitianos nos inúmeros campos estabelecidos sabiam que a nossa presença trazia a esperança de retorno à normalidade. Por isso e pela nossa seleção de futebol, a bandeira brasileira era sinônimo de algo muito bom.”

Uma fotografia guardada pelo general ajuda a dimensionar essa lembrança fora dos relatórios operacionais. Em uma atividade com crianças haitianas, um menino lhe pediu a bandeira brasileira que levava no uniforme. “Nesta ocasião, o menino me pediu a bandeira do uniforme. E saiu bem feliz quando ganhou”, recorda o general.
O episódio não resume a missão nem autoriza generalizações sobre a percepção de toda a população haitiana, mas oferece uma dimensão humana da relação construída naquele contexto: para parte dos haitianos com quem os militares brasileiros conviveram, a bandeira do Brasil evocava o futebol, a ajuda humanitária e a expectativa de algum retorno à normalidade.
Essa percepção também aparece nas lembranças do Capitão de Fragata (Fuzileiro Naval) Leonardo Sobral Garcia da Silva, que serviu na MINUSTAH entre 2011 e 2012, quando ainda era Capitão-Tenente. Foi sua primeira missão internacional, em um Haiti que ainda carregava as marcas materiais e humanas deixadas pelo terremoto.
O Comandante (Fuzileiro Naval) Leonardo Garcia recorda uma Porto Príncipe ainda atingida pela destruição, mas marcada também pela capacidade de resistência de sua população. Para ele, o contato cotidiano com os haitianos revelou o peso simbólico que o Brasil havia conquistado no país.
Servi no Haiti entre 2011 e 2012, logo depois do terremoto de 2010, em um momento em que Porto Príncipe ainda tinha estruturas muito danificadas. O que mais me marcou foi a alegria e a resiliência do povo haitiano. Quando eles identificavam um militar brasileiro, parecia que uma porta se abria. Havia uma receptividade muito grande ao Brasil."

Ao recordar o reencontro entre Brasil e Haiti na Copa do Mundo, o oficial também destacou as memórias que conserva do período em que serviu no país caribenho.
"Ao ver Brasil e Haiti novamente em uma Copa do Mundo, lembro das pessoas e, principalmente, das crianças nas ruas, da forma como valorizavam a educação. Mesmo em meio a tantas dificuldades, faziam questão de usar os uniformes bem limpos e arrumados, às vezes a melhor roupa que tinham. Ou seja, valorizavam qualquer oportunidade para melhorar. A missão mostrou que a presença militar era fundamental para manter um ambiente seguro, para que o componente civil e os apoios à população pudessem acontecer. Sem segurança, as demais atividades ficam muito comprometidas."

A lembrança desloca o olhar para além das patrulhas. Em meio às ruínas e às limitações de infraestrutura, crianças continuavam a ir para a escola com uniformes limpos e cuidadosamente arrumados. Eram gestos cotidianos, mas carregados de sentido em meio a uma realidade de privações.
Para o Capitão de Fragata (Fuzileiro Naval) Leonardo Garcia, segurança e ajuda humanitária não eram dimensões separadas. A manutenção de um ambiente minimamente estável era condição essencial para a circulação de equipes civis, o funcionamento de serviços e a chegada de apoio às comunidades atingidas.

A ligação entre futebol, segurança e vida comunitária também atravessou a experiência do Capitão de Corveta (Fuzileiro Naval) Raphael do Couto Pereira. Ele integrou a MINUSTAH em duas passagens. Em 2013, no 18º Contingente, atuou como Comandante de Pelotão. No ano seguinte, no 21º Contingente, voltou ao Haiti como Oficial de Assuntos Civis.
Na primeira função, viveu a rotina de patrulhamento e segurança. Na segunda, passou a atuar diretamente na articulação entre tropas, lideranças comunitárias, instituições locais e o componente civil da missão.
Foi nesse período que participou da mediação de um conflito entre as comunidades de Simon e Pelé, na região metropolitana de Porto Príncipe. A rivalidade havia produzido medo, restringido a circulação de moradores e transformado a separação entre os dois territórios em uma zona de tensão permanente.
A resposta inicial havia sido militar. Pontos de controle foram implantados para limitar a circulação de grupos armados e reduzir confrontos. A presença da tropa, porém, não bastava. Era preciso criar interlocutores, reconstruir canais de diálogo e demonstrar às comunidades que os militares poderiam ser mediadores, e não apenas uma força de contenção.
Quando vejo Brasil e Haiti novamente em campo, lembro que a relação entre os dois países não se resume ao placar. Para quem esteve na missão, o Haiti marcou pela força da população, pelas dificuldades enfrentadas no dia a dia e pela importância de manter diálogo, respeito e presença constante junto às comunidades. O fascínio pelo futebol, como uma atividade de integração social, aproximava os militares com a população haitiana, mas a missão mostrava também uma realidade muito mais complexa, que exigia sensibilidade e compreensão da dimensão humana.”
O trabalho envolveu reuniões com lideranças, ações humanitárias, atividades de aproximação e articulação com instituições haitianas. A meta era fazer com que as duas comunidades retomassem a capacidade de conversar sem a mediação da violência.

O processo culminou na assinatura de um acordo de paz entre Simon e Pelé. O documento estabeleceu o compromisso de interromper confrontos e provocações, além de prever a criação de um comitê comunitário conjunto. A continuidade do entendimento dependia da ligação com instituições haitianas, entre elas a Prefeitura de Delmas e a Polícia Nacional Haitiana.

A paz, naquele caso, não podia ser reduzida à assinatura de um papel. O acordo exigia acompanhamento, presença institucional e iniciativas capazes de ocupar o espaço antes dominado pelo medo. Entre as ações previstas estava o uso do esporte e da educação como instrumentos de aproximação entre comunidades separadas pela violência.
Os relatos dos militares convergem em um ponto: sem segurança, a assistência não chegaria. Porém, eles também revelam uma fronteira que a missão não poderia ultrapassar: uma força internacional pode conter a violência, abrir corredores para ajuda e criar condições para o diálogo, mas não pode, sozinha, substituir o Estado haitiano, eliminar desigualdades históricas ou resolver crises políticas acumuladas ao longo de décadas.
Segundo a Coronel Carla Beatriz Medeiros de Souza Albach, do Exército Brasileiro, quem vivenciou o dia a dia de um povo que tem a resiliência como lema e que contou com o Brasil, durante 14 anos, para assegurar a sua paz, sabe que o reencontro desses dois países sobre o tapete verde pode ser comparado a uma reunião de irmãos que já não se viam há alguns anos.

“Um dos muitos eventos que testemunhei no período da minha missão, em 2012/2013, foi, justamente, a inauguração de um campo de futebol, em um bairro humilde da capital haitiana, construído pela Companhia de Engenharia do Exército Brasileiro. Tudo o que vi estampado no semblante de cada uma daquelas crianças foi felicidade e gratidão. Fico até imaginando se algum dos jogadores da equipe do Mundial, hoje, não iniciou ali a sua trajetória de sucesso”, disse a Coronel Carla Beatriz.

A Coronel afirmou ainda que, graças a um mero sorteio, quis o destino que, mais uma vez, esses dois países realizassem algo juntos. Para quem conhece o sentimento histórico de solidariedade e de amizade que une Brasil e Haiti, ela aposta que, nesse jogo, não há lados opostos, ganhadores ou perdedores, simplesmente porque os laços afetivos que os unem já são vitoriosos e sempre estarão acima de qualquer resultado.
Em um ambiente de crise, uma palavra mal compreendida pode ampliar o medo. Uma conversa conduzida com respeito pode abrir caminho para a cooperação. A tradução era, também, uma operação de confiança.
A missão exigia ainda uma estrutura logística capaz de sustentar operações em um país marcado por limitações de infraestrutura, dificuldades de deslocamento e emergências sucessivas.
É nesse ponto que se insere a experiência do Capitão de Corveta (Intendente de Marinha) Leonardo Câmara de Araujo da Fonseca. Integrante do 22º Contingente do Grupamento de Fuzileiros Navais, ele serviu durante seis meses no Haiti em 2015, na área de Intendência, com atuação na gestão do pagamento de pessoal envolvido na missão e dos recursos financeiros destinados ao funcionamento e à manutenção da Base.

A logística raramente aparece nas imagens mais conhecidas de uma operação de paz. As fotografias costumam registrar tropas, viaturas, patrulhas e ações humanitárias. Por trás de cada deslocamento, porém, havia planejamento, transporte, abastecimento, manutenção, comunicação e gestão de recursos.
Ao rever Brasil e Haiti em campo, o Oficial recorda não apenas as dificuldades materiais do país, mas a forma como a população procurava preservar a esperança em meio às adversidades.
"O jogo entre as duas nações trouxe à minha memória as dificuldades enfrentadas pelo povo haitiano e, sobretudo, a forma como buscavam seguir em frente apesar de todas as adversidades. Os seis meses em que servi no Haiti, permitiram-me conhecer de perto os desafios inerentes à realidade do país. Entretanto, mais do que as limitações sociais, econômicas e de infraestrutura, guardo a lembrança da resiliência do povo haitiano e de sua permanente esperança por dias melhores. Nesse sentido, a missão de paz representou não apenas uma experiência profissional singular, mas também uma valiosa lição de humanidade, ao demonstrar que pequenos gestos de cooperação e solidariedade podem ter um impacto significativo na vida das pessoas. Por isso, as imagens da torcida e a postura da própria seleção haitiana em campo despertaram em mim a lembrança de um povo que, mesmo diante de enormes dificuldades, nunca deixava de sorrir, manter a esperança e acreditar em um futuro melhor."
Sem água, alimentos, combustível, equipamentos, comunicação e meios de transporte, a missão não sairia do papel. Em uma realidade de crise, a logística deixa de ser atividade de retaguarda e passa a integrar diretamente a capacidade de manter equipes em campo, apoiar deslocamentos e garantir a continuidade das ações.
A história entre Brasil e Haiti tampouco pode ser contada apenas pelas vozes de autoridades, militares ou jogadores.
Desde o terremoto de 2010, milhares de haitianos chegaram ao Brasil em busca de trabalho, segurança e recomeço. Hoje, fazem parte da vida cotidiana de cidades brasileiras, presentes em universidades, hospitais, empresas, obras, restaurantes, igrejas e pequenos negócios.
A diáspora haitiana acrescentou uma dimensão mais íntima a uma relação que antes parecia restrita à diplomacia, ao futebol e às operações de paz.
Para Frantzdy Pierrot, atacante da seleção haitiana, a partida permanece como uma memória coletiva, inclusive para quem não conseguiu assisti-la. Onde morava, contou, não havia televisão nem eletricidade. Ainda assim, ele conhecia a dimensão daquele dia para o país. “O fato de eles terem ido ao Haiti significou muito para o país”, afirmou Pierrot.
Naquela partida, o Brasil venceu por 6 a 0. O resultado, porém, não foi o que permaneceu. Ficaram as imagens de uma multidão que tomou as ruas, subiu em muros e ônibus e se concentrou nos arredores do estádio Sylvio Cator para ver de perto jogadores conhecidos apenas pela fama, por transmissões escassas ou pela imaginação.
A Seleção deixou Porto Príncipe logo após o amistoso, mas, para Pierrot, aquela passagem ajuda a explicar o vínculo que persiste entre os dois países. “Essa conexão existe por causa da felicidade que a seleção brasileira conseguiu trazer para nós.”
A vitória brasileira por 3 a 0, na Copa do Mundo de 2026, não altera a realidade de um Haiti ainda submetido a graves desafios sociais, políticos e humanitários, tampouco elimina as desigualdades que atravessam a história dos dois países, mas devolve à cena uma memória que o futebol, sozinho, não explica.
Em 2004, o Brasil foi ao Haiti para disputar uma partida. Nos anos seguintes, milhares de militares brasileiros passaram pelo país em uma das experiências internacionais mais complexas da história recente das Forças Armadas.
Em 2026, o placar voltou a favorecer a Seleção Brasileira. Na súmula, serão registrados três gols. Fora dela, permanecem outros fatos: a bandeira de um uniforme entregue a um menino, o atendimento a uma criança em meio à comunidade, o cuidado de vestir a melhor roupa para ir à escola, duas comunidades que interromperam um conflito para tentar construir a paz.
O placar registra um jogo. A história entre Brasil e Haiti registra o que veio antes, o que ficou depois e aquilo que nenhuma vitória consegue encerrar.



Comentários
Foi uma honra ter participado dessa missão entre 2011 e 2012… onde pude aprender muito tanto no nível profissional como pessoal!
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