Em um momento em que as discussões sobre estratégia e segurança marítima ganham relevância global, a Marinha do Brasil (MB) ampliou sua presença no cenário internacional ao participar de conferência realizada na Universidade de Maynooth, na Irlanda, em parceria com a Escola de Guerra Naval (EGN). O encontro reuniu acadêmicos, pesquisadores e profissionais da área de defesa de diferentes países para debater como diferentes culturas e nações desenvolvem suas políticas marítimas — um tema-chave para economias dependentes do mar, como a brasileira, que tem 95% do comércio exterior escoado por vias marítimas.
O projeto busca ampliar o estudo da estratégia marítima sob uma ótica mais diversificada, explorando perspectivas que vão além da visão anglófona tradicional (aquela proveniente dos países de língua inglesa). O objetivo é colocar diferentes países, inclusive o Brasil, na mesa de discussões sobre os fundamentos, desafios e particularidades das práticas marítimas e navais em contextos europeus, africanos, asiáticos e latino-americanos.

A conferência contou com a participação de Oficiais da MB, que realizaram ou estão realizando cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado) incluídos nos programas de capacitação da Força Naval. Eles submeteram seus trabalhos após uma chamada de artigos e foram selecionados pela universidade irlandesa.
O Diretor do Centro de História Militar e Estudos Estratégicos da Universidade de Maynooth, professor doutor Ian Speller, destacou a excelência dos trabalhos apresentados pelos militares da Marinha e a importância da contribuição brasileira para o sucesso do projeto.
“Eles apresentaram diversos trabalhos excelentes que enriqueceram a conferência, tanto em profundidade quanto em amplitude, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento da nossa compreensão das questões de segurança no Atlântico Sul. É muito animador constatar o profundo interesse em estratégia e política marítima na Marinha do Brasil, bem como a evidente qualidade das análises realizadas pelos oficiais. Isso não é comum nas Marinhas do mundo. Deve ser motivo de orgulho para o Brasil”, acentuou.
Para o professor britânico, a participação brasileira no evento foi importante para demonstrar que o pensamento e a prática marítima são muito diversos, ao mesmo tempo que evidenciou a existência de áreas de convergência entre as Marinhas de diferentes regiões.
“A oportunidade de obter a perspectiva de uma Marinha líder fora dos Estados Unidos e da Europa foi particularmente valiosa. Foi útil explorar as maneiras pelas quais o Brasil respondeu a alguns desafios comuns a muitos países, como a capacidade de manter o controle do mar, e a outros relacionados às circunstâncias específicas do Brasil, como a Amazônia Azul”, completou.
As propostas recebidas de autores de diferentes continentes permitiram a organização da conferência com nove painéis, totalizando cerca de 30 trabalhos apresentados ao longo dos dois dias do evento. O Capitão de Mar e Guerra João Ricardo Noritomi, do Estado-Maior da Armada (EMA), foi um dos participantes do encontro. Ele ressalta a relevância da Marinha ocupar esses espaços acadêmicos internacionais e de inserir a perspectiva brasileira em debates sobre os desafios e oportunidades enfrentados pelas Marinhas hoje e no futuro, analisados a partir de perspectivas nacionais e não apenas pelo prisma da competição entre grandes potências.

“Considero fundamental que a Marinha, por meio de seus centros de reflexão e pesquisa, produza estudos e análises de elevada qualidade. Esse esforço intelectual é o que nos permite dialogar de igual para igual com instituições acadêmicas e estratégicas, militares e civis, tanto no Brasil quanto no exterior. Ao ocupar esses espaços internacionais, ampliamos nossa exposição a perspectivas diferentes, identificamos tendências emergentes e trazemos ideias que podem fortalecer nossas próprias iniciativas”, frisou Noritomi.
O projeto de pesquisa conjunto entre a Universidade de Maynooth e a Escola de Guerra Naval (EGN) foi iniciado há cerca de um ano e prevê, ainda, a realização de uma segunda conferência no segundo semestre de 2026, nas instalações da EGN, no Rio de Janeiro, além da publicação de um livro com uma seleção dos artigos apresentados. “Isso indica continuidade, previsibilidade e comprometimento entre as instituições, com potencial de ampliação dessa cooperação em outras áreas, como programas de pesquisa, intercâmbio e formação”, reforçou o Capitão de Mar e Guerra.
Imagem de capa: Prof. Dr. Ian Speller



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