Em um cenário dominado por gelo, ventos intensos e temperaturas negativas, pequenas formas de vida desafiam os limites da sobrevivência — e despertam o interesse da ciência brasileira. Na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), pesquisadores investigam como organismos que resistem ao frio extremo podem revelar caminhos para novos tratamentos de saúde. 

Drauzio Varella, médico, pesquisador e um dos mais conhecidos divulgadores da ciência no Brasil, visitou o continente antártico para compartilhar conhecimentos que combinam atuação clínica, produção científica e compromisso com a educação em saúde. Durante sua estadia no continente gelado para a gravação de um documentário sobre ciência na Antártica – de 30 de janeiro a 6 de fevereiro –, ele destacou o papel essencial da Marinha do Brasil (MB) ao garantir as condições necessárias para que estudos como esse aconteçam no continente gelado.

Da Amazônia à Antártica

Uma das pesquisas da qual o médico participa na Amazônia diz respeito à coleta de plantas para preparação de extratos para teste em sistemas experimentais. Segundo ele, os testes se iniciam contra células malignas de vários tipos de câncer e contra bactérias resistentes. “Temos testado contra determinados mecanismos que são comuns a muitos problemas de saúde. E a ideia de vir para cá foi de observar a infraestrutura que a Marinha coloca à disposição para um tipo semelhante de estudo, com briófitas que sobrevivem apesar da variação de temperatura”, afirmou. 

A pesquisa que ele acompanhou, de autoria do biólogo Mateus Paciencia, diz respeito à ação de substâncias que este coleta no continente antártico. São amostras que seguem um rigoroso processo científico até se tornarem material de estudo em laboratório – assim como Drauzio Varella faz na Amazônia.

“Lá no extremo norte, elas têm que chegar secas. Em seguida, são moídas, se prepara o pó, uma amostra vai para o herbário, para a gente saber que planta exatamente é aquela, e classificamos até a espécie. Em seguida fazemos um processo de moagem e aquele pó que se forma ali é colocado na presença de água, em perguladores, que são recipientes em que ela fica um tempo ali dissolvendo, fazendo como se fosse um chá. Então coloca em liofilizadores que vão fazer o líquido evaporar. A diferença básica daqui com o trabalho no Amazonas é que lá você chega em uma árvore, e colhe quantidades grandes, quilos de material, e aqui são gramas. Mas na hora da testagem, você não precisa de quantidades muito grandes. As bem pequenas são suficientes”, completou Drauzio Varella.

E muitas dessas estratégias que elas desenvolvem no sistema microscópico servem para a gente. Por exemplo, a respiração é muito semelhante à nossa. Como elas resistem ao frio? O que acontece com o metabolismo delas? Isso pode dar um grande número de informações”, pontuou o médico.

A pesquisa e seus desafios

O biólogo Mateus Paciencia, que integra a equipe de pesquisadores do projeto Briotec, conta que, no caso da ação antienzimática dessas substâncias, estuda-se o poder inibitório de uma enzima chamada acetil-colinesterase, cuja inibição pode aumentar os níveis de acetil-colina, um neurotransmissor essencial para manutenção de movimentos, sono, aspectos neurocognitivos. “Essa capacidade tem sido estudada como uma forma de se combater os sintomas do Mal de Alzheimer. Então, nós buscamos encontrar se existem moléculas naturalmente produzidas (nas plantas, por exemplo) que possam ter esse poder inibitório”, descreveu o pesquisador.

Segundo ele, a escolha da Antártica está diretamente relacionada às condições extremas enfrentadas pelos organismos que vivem na região. “O mesmo vale para os outros tipos de ação biológica, seja anticâncer, antibacteriana, etc. A ideia é verificar se as plantas da Antártica possuem esses tipos de propriedades. E por que lá? Por conta do ambiente altamente estressante e extremo que essas plantas precisam enfrentar para sobreviver”, discorre. 

Os cientistas acreditam que, ao longo da evolução, organismos “extremos” (hoje chamados de ‘extremófilos’) sejam capazes de produzir uma grande quantidade de componentes químicos diferentes, muitas vezes diferentes dos organismos de outros tipos de ambientes. 

A gente tem sempre que lembrar que os organismos vivos, todos os seres vivos, são, em uma última análise, ‘pequenas fábricas de substâncias’ importantes para a manutenção de todos os processos vitais. E quanto mais complexo o tipo de ambiente, ou mais estressante for, maior a chance de um determinado organismo precisar desenvolver meios químicos que venham a permitir que ele habite esse local”, disse.

Apesar dos avanços já obtidos, Mateus ressalta que o desenvolvimento de aplicações práticas ainda demanda tempo. “De modo concreto, hoje em dia a gente já conseguiu obter resultados muito animadores com as plantas da Antártica. Algumas espécies têm mostrado valoroso potencial farmacológico, de modo que temos publicado esses resultados em revistas científicas especializadas e também de divulgação (científica). Mas é um trabalho de longa duração. Até se chegar na descoberta de uma molécula (ou de algumas moléculas, porque a ação biológica nem sempre é determinada por uma única molécula, mas sim pela interação sinérgica entre duas ou mais moléculas) capaz de se transformar em um medicamento no futuro, por exemplo, ainda tem muito pela frente”, completou Mateus.

Ele conta ainda que é importante que se diga que o estudo não tem por objetivo a produção de um medicamento propriamente dito, mas identificar compostos nas plantas que um dia possam vir a ser usados para se produzir um determinado medicamento, o que, se acontecer, será feito pela indústria farmacêutica, não pela universidade. “Isso é um trabalho altamente custoso e longuíssimo prazo”, afirmou.

E além do potencial científico, a pesquisa na Antártica impõe desafios constantes aos pesquisadores em campo. O pesquisador explica que as condições ambientais influenciam desde o deslocamento até a execução das atividades. 

Existem vários desafios a serem superados para se realizar pesquisa de campo na Antártica. O primeiro deles, obviamente, é chegar lá. Isso não é uma tarefa tão simples. No caso do PROANTAR, os estudiosos podem ir de Navio (Marinha) ou Aeronave (Força Aérea). Mas tudo depende do clima, não é só embarcar e… ‘pronto, tô na Antártica’. Há todo um planejamento minucioso levando em conta as condições climáticas. Você faz planejamento A B C e acaba realizando o D, E”, ponderou.

Ele é quem dita a regra em tríade do trabalho na Antártica, repetida à exaustão: “paciência, observação, oportunidade!. Paciência pra esperar o melhor momento, observação pra acompanhar as mudanças do clima e saber aproveitar a oportunidade pra sair a campo. Mas, também existem outros desafios, como a resistência física e a resiliência psicológica. Estar bem preparado fisicamente é fundamental", garantiu o biólogo.

Ciência como legado

Mais do que resultados imediatos, ambos os projetos tem como foco a formação de novos pesquisadores e o avanço gradual do conhecimento científico. “O meu projeto é acadêmico, sem interesse comercial. A intenção é a gente identificar compostos ativos em sistemas experimentais”, descreveu o médico. “Porque talvez eu morra antes de surgir um grande avanço”, brincou Drauzio Varella.

Ele conta que o mais importante nessa fase é formar uma grande quantidade de estudantes, que tocarão seus próprios projetos individuais. “E assim a ciência vai para a frente, a passos largos”, disse.

Mesmo com resultados que podem levar anos — ou décadas — para se concretizar, ele reitera que a motivação central permanece clara: contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. “Esse é o objetivo final, não é? Você ajudar as pessoas. Para isso existe a medicina: para aliviar o sofrimento humano e curar”, reiterou.
Entre os objetivos do estudo estão encontrar a cura – ou sistemas que amenizem – para a diabetes, pressão alta, câncer. “Desenvolver uma substância ativa, um composto que tenha aplicação na prática médica, aí é a glória, é a glória geral”, enfatizou o oncologista.

Nesse ínterim, Drauzio Varella aponta que a MB preserva, cria condições e apoia pesquisadores e cientistas para poderem trabalhar da melhor forma possível. 

E eu sou testemunha de que esse trabalho é maravilhoso, super bem feito. Eles tem profissionalismo e competência. Dá para ter orgulho da Marinha brasileira”, finalizou.

Apoio dos navios

Reconstruída e reinaugurada em 2020, a EACF abriga laboratórios modernos e infraestrutura para apoiar pesquisas de ponta em áreas que envolvam mudanças climáticas, oceanografia, biologia marinha, fisiologia, glaciologia e geociências. E se a EACF é o coração físico do Programa Antártico (PROANTAR), os navios da MB são suas artérias. Atualmente, o Programa conta com dois meios navais empregados no ambiente antártico: o Navio de Apoio Oceanográfico “Ary Rongel” e o Navio Polar “Almirante Maximiano”.

De acordo com o Comandante do Navio Polar “Almirante Maximiano”, Capitão de Mar e Guerra Carlos Eduardo Navazio de Oliveira da Silva, a atuação se divide em dois grandes eixos: logística e ciência. Na área logística, somos responsáveis por prover a nossa Estação Antártica Comandante Ferraz os insumos de toda sorte, desde combustível a gêneros alimentícios, sobressalentes e maquinário, além de transportar para o Brasil equipamentos que necessitam de manutenção”, explicou.

Já no campo científico, os números demonstram a magnitude da contribuição naval: cerca de 40% da pesquisa científica brasileira realizada na Antártica ocorre a partir dos navios. “Especificamente, o ‘Almirante Maximiano’ concentra aproximadamente 80% dessa pesquisa embarcada”, destacou o Oficial.

Nos últimos dois anos, aproximadamente 300 pesquisadores passaram pelo navio polar, apoiando mais de 20 projetos científicos. A presença embarcada permite que a pesquisa brasileira ultrapasse os limites da estação e alcance áreas remotas do Oceano Austral, ampliando o alcance e a relevância dos estudos.

Por exemplo: durante a Operação que está em curso, o Navio cruzou o Círculo Polar Antártico e realizou pesquisas a mais de 400 milhas náuticas (cerca de 700km) da estação da Marinha.

Logística complexa em ambiente extremo

Operar na Antártica exige planejamento e confiabilidade. Entre abril e setembro, os navios passam por rigorosos períodos de manutenção preventiva e corretiva, garantindo elevado grau de prontidão antes do início da fase de verão das Operações Antárticas (OPERANTAR), realizada entre novembro e março. Além da robustez dos equipamentos – frequentemente em duplicidade para assegurar redundância –, os meios da Marinha são habilitados a navegar em áreas de gelo fragmentado, com espessura de até 40 centímetros, característica típica do verão antártico.

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Comentários

Maria Ivette C… (não verificado) Sáb, 16/05/2026 - 01:24

Estive em 4 expedições na Antártica em pesquisas relacionadas a aspectos do metabolismo bioenergético de peixes antárticos no Projeto: Comportamento Bioquímico e Fisiológico de Organismos Antárticos pesquisando o efeito da temperatura e de substratos sobre a atividade respiratória de mitocondria isolada de órgãos e tecidos de peixes antárticos. Outras atividades de pesquisa realizadas: cultivo celular de órgãos de peixes e pinguins, coletas de amostras para estudos bioquímicos, coleta de amostras para análise de micro-organismos antárticos.
Agradecimento ao Treinamento na Ilha da Marambaia, aos integrantes: do Grupo Base, do NAPOC Ary Rongel e do AMRJ; a SECIRM e ao CNPq - PROANTAR.

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