O Navio-Patrulha Oceânico (NPaOc) “Apa” deixou o Rio de Janeiro (RJ), na tarde de quarta-feira (10), rumo à Ilha da Trindade, a cerca de 1.200 quilômetros de Vitória (ES), com 10 pesquisadores brasileiros. Eles são responsáveis por três projetos e devem desenvolver estudos de campo nessa área de proteção ambiental (APA) cujo acesso é controlado pela Marinha do Brasil (MB) e permitido apenas a militares e cientistas autorizados.
Gerente Operacional do “MOVAR” — um dos projetos mais longevos realizados na região oceânica entre a cidade de Cabo Frio e a Ilha da Trindade —, a oceanógrafa Tayanne Pires Ferreira explica que, há mais de 20 anos, as pesquisas vêm contribuindo para ampliar a base de dados sobre os oceanos, possibilitando a análise da variabilidade da Corrente do Brasil — que flui para o sul e é caracterizada por águas quentes e salinas — e a avaliação de modelos de previsão marinha e climática.

De acordo com a Gerente Operacional, o Projeto “MOVAR” executou 107 campanhas até agosto deste ano, com o lançamento de 4.572 sondas batitermográficas, obtendo perfis de temperatura com profundidade de até 800 metros. Os lançamentos das sondas são realizados a cada 27 km, com refinamento para 18 km na região de plataforma-talude (área de transição entre a extensão submersa do continente, mais rasa, e as bacias profundas), onde a Corrente está localizada.
Os resultados de duas décadas evidenciam tendências de aquecimento de aproximadamente 0,3°C/década na camada superficial, mudanças na espessura da camada de mistura e eventos extremos de temperatura associados a anomalias de calor e à variabilidade da Corrente do Brasil. Esses dados constituem uma base robusta para detectar sinais de mudanças climáticas e avaliar a variabilidade em um contexto de aquecimento global”, explica a oceanógrafa.
As informações coletadas são compartilhadas com sistemas de monitoramento internacionais, como o GOOS (do inglês Global Ocean Observing System). Por sua ratificação à Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, o Brasil compartilha informações com o GOOS, por meio do GOOS-Brasil, sistema criado pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM) para coleta e disponibilidade de dados oceanográficos, climáticos e meteorológicos do Atlântico Sul.
Investimento em pesquisas nacionais
Os trabalhos científicos desenvolvidos na Ilha da Trindade foram selecionados por edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que disponibilizou um investimento total de R$ 4,2 milhões. Os pesquisadores são vinculados à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e à Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

A viagem para a Ilha da Trindade, que tem duração média de quatro dias, também conduzirá um novo efetivo de militares para substituir o contingente anterior no posto oceanográfico mantido pela MB — encarregado da manutenção de sua estrutura e segurança pelos próximos quatro meses. O grupo também continuará a promover a coleta diária de dados para o Serviço Meteorológico da Marinha e o apoio logístico aos pesquisadores e suas atividades no local.
Apoio logístico
A vocação científica da Ilha da Trindade se deve ao ecossistema local, que possui variadas espécies endêmicas e formação geológica peculiar, além de constituir fonte de dados essenciais para estudos do clima. Por essa razão, o governo brasileiro criou o Programa de Pesquisas Científicas na Ilha da Trindade (PROTRINDADE), em 2007, gerenciado no âmbito da CIRM. Enquanto o CNPq avalia o mérito científico, seleciona e custeia os projetos, a MB oferece o apoio logístico.
A estação científica mantida pela Marinha é capaz de alojar até oito pesquisadores, que têm à disposição dois laboratórios, equipados com lupas estereoscópicas de alta precisão, computadores para organização e processamento dos dados coletados e freezer para o armazenamento de amostras. O transporte até o local é feito por navios de guerra da MB, sendo o Navio-Patrulha Oceânico (NPaOc) “Apa” (P121) o meio naval empregado nesta nova expedição.

O “Apa” (P121) é um dos três navios da classe em operação na MB, juntamente com o NPaOc “Amazonas” (P120) e o NPaOc “Araguari” (P122). Tanto o “Apa” quanto o “Amazonas” operam na vigilância e defesa do litoral, de áreas costeiras e das plataformas de petróleo nas águas jurisdicionais brasileiras sob responsabilidade do Comando do 1º Distrito Naval. As embarcações são equipadas com canhão e metralhadoras, e possuem capacidade para transportar até seis contêineres de 15 toneladas cada.



Comentários
Que notícia boa! Que consigam mais recursos para ampliar e manter as pesquisas!
Olá, Miriam! Na verdade, essa ilha recebe constantemente cientistas e vários projetos em pesquisas durante muitos anos. Várias universidades participam e já participaram junto com nossa Marinha.
Ouvir comentários que até existe um tesouro misterioso escondido no interior da ilha e não tenho certeza que a marinha do Brasil usa a mesma como alvo de treinamento de artilharia.
Pelo pouco que sei a ilha só é permitida a presença de membros da Marinha e pesquisadores (cientistas). É proibido o desembarque de civis, fui avisado que é proibido até mergulhar e se aproximar da mesma sem autorização da Capitania dos Portos o importante que se tornou uma área de proteção ambiental. Parabéns a Marinha e seus membros.
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