Após seis meses no comando da Força-Tarefa Combinada 151 (CTF 151, da sigla em inglês Combined Task Force), o Brasil transferiu a liderança para o Reino Unido, em cerimônia ocorrida nesta segunda-feira (23), em Manama, capital do Bahrein. Essa foi a quarta-vez que o País, representado pela Marinha do Brasil (MB), esteve à frente dessa estrutura de combate à pirataria, que está inserida na maior coalizão militar naval do mundo, as Forças Marítimas Combinadas.

Sob o Comando do Contra-Almirante Marcelo Lancellotti, a CTF-151 atuou em uma das mais estratégicas rotas marítimas internacionais, que inclui o Golfo de Áden, a Bacia da Somália e o Mar Arábico. O Estado-Maior composto por 12 militares brasileiros, integrados a um contingente multinacional de 11 países, com um total de 25 integrantes, coordenou navios e aeronaves disponibilizados pelos países-membros, com o intuito de dissuadir atividades ilícitas e se contrapor a ações de pirataria.

 
Reconhecimento internacional

Segundo o Contra-Almirante, a recorrência do Brasil no Comando da CTF-151 evidencia o prestígio e a credibilidade da Força Naval brasileira junto à comunidade internacional. “Isso indica a continuidade do reconhecimento da Marinha do Brasil como uma liderança capaz, confiável e interoperável, para gerir uma missão sensível e com alta visibilidade política”, avalia.

Essa trajetória não é circunstancial: ela se traduz em entrega operacional, disciplina de comando e aderência doutrinária em ciclos de seis a sete meses, onde transparência, coordenação com centros de informação marítima e respeito a procedimentos operativos comuns são requisitos inegociáveis. É uma validação real à maturidade do nosso Corpo de Oficiais e Praças e às rotinas de Estado-Maior que sustentam a tomada de decisões no mar”, reforça o Contra-Almirante.

Combate à pirataria

Uma das ações de maior repercussão nesse período foi a resposta multinacional ao ataque pirata contra o Navio-Mercante “Hellas Aphrodite”, nas proximidades da costa da Somália. A embarcação foi abordada por um grupo pirata que utilizava uma embarcação previamente sequestrada como navio-mãe na região. Mesmo sob ataque, a tripulação conseguiu se refugiar em um compartimento fortificado do navio e se comunicar com as autoridades marítimas.

A reação coordenada pela CTF-151, em conjunto com a Força Naval Europeia (EUNAVFOR) e a Marinha da Índia, assegurou o acompanhamento contínuo da situação e uma movimentação ágil de navios e aeronaves para a área da ocorrência. Diante da pressão exercida por essas forças, os piratas abandonaram o navio, permitindo a libertação segura da tripulação. O caso aconteceu em novembro do ano passado.

 
Impactos globais

A Força-Tarefa Combinada 151 compreende rotas que concentram alguns dos principais pontos de estrangulamento do tráfego marítimo mundial, como o Canal de Suez e os Estreitos de Ormuz e de Bab El Mandeb. 

Qualquer instabilidade nessas regiões tende a produzir efeitos imediatos sobre fretes, seguros, prazos logísticos e preços de energia”, explica o Contra-Almirante Lancellotti.

A pirataria ou outras ameaças à navegação — como os ataques de rebeldes houthis a navios mercantes no Mar Vermelho entre 2023 e 2024 — têm impacto direto na economia mundial. “Observam-se, em regra, três consequências principais: elevação dos custos operacionais, redirecionamento de rotas comerciais e maior pressão sobre cadeias globais de suprimento, com consequente aumento de inflação e escassez de produtos em nível global”, esclarece.

 
Consequências para o Brasil

Ainda que geograficamente distante, a instabilidade nas rotas marítimas nessa região pode ter reflexos sobre o entorno estratégico brasileiro. “Para o Brasil, fortemente dependente do comércio exterior que flui pelo mar, especialmente no transporte de commodities agrícolas, minerais e petróleo, qualquer elevação no custo logístico ou operacional repercute diretamente na competitividade de seus produtos no mercado internacional”, pondera o Almirante.

Segundo o Oficial General brasileiro, setores como o agronegócio seriam especialmente impactados, uma vez que grande parte das exportações utiliza rotas marítimas que tangenciam o Mar Arábico para atender aos mercados da Ásia e do Oriente Médio. O encarecimento do transporte reduziria margens de lucro dos produtores, podendo inviabilizar, inclusive, contratos em mercados de alta concorrência.

 
Conhecimento aplicado ao Atlântico Sul

Além de proteger os interesses comerciais naquela área, a participação do país na CTF-151 contribui para garantir a estabilidade de outras rotas consideradas vitais para a economia global. 

A experiência acumulada pela Marinha no comando de uma força multinacional voltada para a repressão à pirataria fortalece nossa capacidade de compreender, prevenir e responder a desafios semelhantes que possam afetar o Atlântico Sul”, avalia o Contra-Almirante Lancellotti.

Na região do Atlântico Sul, a MB coordena desde 2021 o exercício “Guinex” no Golfo da Guiné, na costa ocidental africana. O treinamento conjunto com outras Marinhas tem cooperado para reduzir os crimes de pirataria e de roubos armados contra navios na região, que em 2020 chegou a registrar 106 casos, segundo relatório da organização sem fins lucrativos Stable Seas. Em 2025, foram 21 casos, conforme dados da Câmara de Comércio Internacional.

O comando da Força-Tarefa Combinada 151 segue o princípio de rodízio entre as nações participantes das Forças Marítimas Combinadas, o que garante continuidade, equilíbrio político e difusão de experiência operacional entre seus membros. A liderança do Reino Unido terá a duração de seis meses, quando então será transferida à Coreia do Sul. A previsão é de que o Brasil volte a assumir o comando da CTF-151 a partir de fevereiro de 2027.

 
Sobre as Forças Marítimas Combinadas

As Forças Marítimas Combinadas (CMF, da sigla em inglês Combined Maritime Forces) são formadas por uma coalizão multinacional integrada por 47 países, cuja missão é prover estabilidade regional e segurança marítima em uma área de cerca de 8 milhões de quilômetros quadrados. A Força-Tarefa Combinada 151 é uma das cinco forças-tarefas operadas pela CMF. Mais informações sobre a CTF- 151 estão disponíveis no combinedmaritimeforces.com.

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Comentários

Clovis Pereira… (não verificado) Qua, 25/02/2026 - 09:11

O Brasil já tem partipado de várias forças combinadas. Tem experiência internacional mostrando uma experiência profissional ao longo dos anos. Com operações no Suez Aiti, África etc. Já comandou forças da ONU na África com efetivo de 24.000 homens. Com novos navios que a marinha vai receber, cria uma força naval experiente. Parabéns aos nossos militares e instituições militares.

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