Após cerca de dois meses de comissão no Atlântico Sul, o Navio-Patrulha Oceânico (NPaOc) “Araguari”, da Marinha do Brasil (MB), concluiu sua participação nas operações multinacionais “Obangame Express 2026” e “Guinex VI”, reforçando a presença brasileira no Golfo da Guiné, região estratégica para a segurança marítima e para o comércio internacional.

Ao longo da comissão, o NPaOc “Araguari” – subordinado ao 3º Distrito Naval e sediado em Natal/RN – participou de exercícios operativos, treinamentos conjuntos e intercâmbio profissional. As atividades tiveram como foco o aprimoramento da vigilância marítima, o compartilhamento de informações e a coordenação entre forças militares diante de ameaças como pirataria, tráfico de drogas, tráfico de armas, pesca ilegal e roubos armados contra embarcações.

Os 120 militares a bordo do navio brasileiro (incluindo um Oficial da Armada argentina) navegaram quase 10 mil milhas até atracarem em seis portos: Douala (Camarões), São Tomé (São Tomé e Príncipe), Walvis Bay (Namíbia), Luanda (Angola), Abdijan (Costa do Marfim) e Lagos (Nigéria). Junto aos brasileiros, nesses portos, estiveram presentes marinheiros de Portugal, Costa do Marfim, Benin, Namíbia, Angola, Camarões, Nigéria e Estados Unidos, além da Guarda Costeira de São Tomé e Príncipe.

Um dos momentos de maior destaque ocorreu durante a Operação “Obangame Express 2026”, quando o navio brasileiro participou de um exercício de ameaça assimétrica com emprego de sistemas de superfície não tripulados da Marinha dos Estados Unidos. A atividade foi conduzida no rio Wouri, no canal de acesso ao porto de Douala, em Camarões, em conjunto com a Task Force (Força-Tarefa) 66 norte-americana.

Durante o exercício, foram empregados veículos autônomos do tipo Global Autonomous Reconnaissance Craft (GARC) e Lightfish USV, utilizados para simular cenários de ameaças marítimas envolvendo embarcações de pequeno porte e de difícil detecção. A atividade evidenciou a crescente relevância do uso de sistemas não tripulados no ambiente marítimo contemporâneo, especialmente em regiões marcadas por desafios de segurança assimétrica.

Diplomacia Naval

Além das operações militares, a comissão também teve forte dimensão diplomática e humanitária. Durante escala em São Tomé e Príncipe, nos dias 2 e 3 de maio, o “Araguari” recebeu a visita do Embaixador do Brasil no país, Pedro Luiz Dalcero, e do Ministro da Defesa e Ordem Interna São-tomense, Brigadeiro-General Horácio Castro da Trindade de Sousa.

Na ocasião, a Missão de Assessoria Naval do Brasil em São Tomé e Príncipe coordenou a entrega de doações para comunidades locais, provenientes de instituições governamentais e religiosas brasileiras, reforçando os laços de solidariedade, fraternidade e cooperação entre os dois países.

O período em São Tomé também foi marcado pela realização de atividades conjuntas com a Guarda Costeira local e com a Marinha de Portugal. As missões incluíram procedimentos de abordagem a embarcações suspeitas de atividades ilícitas, manobras táticas e treinamentos de comunicações visuais por bandeiras.

O Comandante do NPaOc “Araguari”, Capitão de Fragata Anselmo Azevedo da Silva, ressaltou que a MB tem contribuído para a projeção internacional do País por meio da participação em operações no exterior, ações de presença em áreas estratégicas, “mostra de bandeira” em portos estrangeiros selecionados e realização de exercícios e jogos de guerra bilaterais e multilaterais, com o objetivo de ampliar a interoperabilidade com marinhas amigas.

Nesse contexto, o Golfo da Guiné, por integrar o entorno estratégico brasileiro, possui elevada relevância geopolítica e econômica, sendo um importante corredor do comércio marítimo internacional, com intenso fluxo de petróleo, gás natural e outras commodities. A proximidade geográfica com o Brasil e a crescente interdependência econômica reforçam sua importância estratégica”, afirmou o Comandante.

Ele lembra que a região enfrenta desafios relacionados à segurança marítima decorrentes de fatores socioeconômicos, instabilidade política e limitações estruturais das marinhas locais, favorecendo a ocorrência de ilícitos como pirataria, sequestro de pessoas, tráfico de armas e drogas e pesca ilegal.

“Justamente por isso se faz necessária uma maior cooperação internacional e o fortalecimento das capacidades marítimas dos países lindeiros. Nesse ínterim, a MB atua como instrumento de diplomacia naval e de cooperação, contribuindo para o fortalecimento das capacidades locais e para a estabilidade regional. Por isso, é importante a participação anual nesses exercícios no Atlântico Sul”, completou.

Rotas desafiadoras

Considerado uma das áreas mais sensíveis para a segurança marítima internacional, o Golfo da Guiné concentra importantes rotas de comércio marítimo e enfrenta desafios relacionados a ilícitos transnacionais. Nesse sentido, os exercícios multinacionais desempenham papel fundamental também no aumento da confiança entre os países participantes e no aperfeiçoamento dos mecanismos de coordenação de sistemas voltados à proteção do ambiente marítimo.

Segundo o professor de Geopolítica da Escola de Guerra Naval, Capitão de Mar e Guerra (Reserva) Leonardo Mattos, iniciativas desse tipo possuem importância crescente diante dos desafios de segurança enfrentados pelos países da região e da necessidade de atuação coordenada entre as marinhas parceiras. Ele reitera que o entorno estratégico brasileiro é um conceito político estratégico da Política Nacional de Defesa do nosso País, a qual abrange a América do Sul, o Atlântico Sul, a Antártica e a Costa Ocidental Africana.

“Diante do acelerado crescimento econômico e populacional do continente africano, torna-se imperativa a presença do Brasil na região por meio de todas as expressões do poder nacional. Esse estreitamento de laços reflete-se no intercâmbio acadêmico anual de estudantes africanos em universidades e escolas militares brasileiras, fortalecendo a cooperação bilateral. No âmbito naval, a Marinha do Brasil – que mantém missões permanentes na Namíbia, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde – reitera a relevância geopolítica da região ao participar das Operações; e, ademais, ao assumir, por um tempo, a presidência da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), o País avança na integração regional com o firme propósito de consolidar o oceano como um espaço livre de armas nucleares e de outras ameaças à segurança.

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