O mais duradouro programa científico brasileiro caminha em direção ao meio século, desenvolvendo ininterruptamente pesquisas que subsidiam áreas como saúde, clima e biotecnologia. A explicação para o País ser capaz de manter o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) por tanto tempo pode estar no esforço integrado de diferentes vertentes, conscientes, cada uma, da importância de seu papel para o sucesso dessa política pública.

A seleção dos projetos de pesquisa é conduzida com base no mérito científico pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), fundação pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Os projetos selecionados apresentam suas necessidades científicas, logísticas e ambientais e, então, o PROANTAR busca conciliar os objetivos dos pesquisadores com os meios disponíveis e as exigências de proteção do ambiente antártico.

“Há uma complementaridade muito clara: a ciência estabelece o que precisa ser pesquisado, os aspectos ambientais determinam como isso pode ser realizado de maneira responsável e a logística proporciona as condições para que a pesquisa aconteça com segurança e eficiência”, afirma o Subsecretário para o PROANTAR, da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (SECIRM), Capitão de Mar e Guerra Carlos Eduardo Navazio de Oliveira da Silva.

O PROANTAR em números

Nos últimos cinco anos, o PROANTAR aumentou em 85,7% o número de projetos científicos apoiados, embora não tenha registrado ajuste significativo no investimento, que manteve a média de 6,3 milhões de reais anuais, entre repasses do orçamento e emendas parlamentares. O valor é empregado no suporte logístico, que inclui combustível, suprimentos e manutenção de instalações e meios, como navios, helicópteros e aviões.

O Programa não apenas apoiou mais pesquisas, como também ampliou o número de pesquisadores atendidos de 49, em 2021/2022, para 185, em 2025/2026. Os registros revelam, ainda, o aumento da participação feminina entre 2021/2022, quando eram 15 pesquisadoras, e 2025/2026, edição que contou com 88 mulheres. Esses cientistas são vinculados a 20 instituições, distribuídas por 10 estados das cinco regiões do País.

 
Braço logístico do PROANTAR

Desde que foi criado em 1982 — portanto, há 44 anos —, o PROANTAR encontra na Marinha do Brasil o seu braço logístico. O Navio Polar (NPo) “Almirante Maximiano” e o Navio de Apoio Oceanográfico (NApOc) “Ary Rongel” são responsáveis pelo transporte de combustível, gêneros, equipamentos, e também dos cientistas e do grupo-base, formado por 17 militares que permanecem na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) cuidando de seu funcionamento.

A Marinha do Brasil coordena o planejamento e provê grande parte do suporte logístico necessário para transformar os projetos científicos em atividades efetivamente realizadas na Antártica. Isso envolve os navios da Marinha, a EACF, embarcações, helicópteros, acampamentos, transporte de suprimentos, comunicações, manutenção e, principalmente, a segurança das pessoas que trabalham naquele ambiente”, explica o Subsecretário.

Além de favorecer o desenvolvimento científico brasileiro, a presença no continente gelado também tem valor geopolítico. É ela que permite ao Brasil participar de decisões relacionadas ao futuro da região. O País é estado-membro do Tratado da Antártica desde 1975, quando aderiu ao acordo, mas tornou-se membro com direito a voto apenas em 1983, um ano após criar o PROANTAR e um ano antes de estabelecer uma base permanente no local.

Quem é o grupo-base

Essa base é a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), inaugurada em fevereiro de 1984, na Baía do Almirantado, na Ilha Rei George. Naquela época, o espaço era capaz de abrigar apenas um grupo-base formado por 12 militares da Marinha do Brasil e com condições suficientes para permanecer pelo período aproximado de um mês. Mais de quatro décadas depois, a EACF é capaz de abrigar até 64 pessoas, a maioria pesquisadores.

A Capitão-Tenente (Médica) Lara Gomes integra o atual grupo-base de 17 Oficiais e Praças que guarnecem a Estação Antártica Comandante Ferraz. Eles chegaram ao local em outubro do ano passado, junto com os pesquisadores brasileiros. Mas ao contrário dos cientistas, que já retornaram ao Brasil nos navios ou em voos da Força Aérea Brasileira (FAB), os militares permanecerão no gelo até outubro deste ano, quando um novo contingente o substituirá.

Única mulher da equipe, a médica é responsável por promover e preservar a saúde de todos os residentes da Estação, militares e civis. Para fazer parte desse destacamento, ela e os demais foram submetidos a um processo seletivo rigoroso, que incluiu avaliação física, mental e de competências sociais e profissionais. “Ao chegar à Estação, todos participam de uma atividade na qual são apresentados deveres, normas e condutas esperados durante a permanência na Antártica”, conta.

Unidos por um objetivo maior

As ações que precedem a chegada de cientistas e militares visam garantir a segurança do ambiente de trabalho. 

Essa convivência tão próxima, em um ambiente tão desafiador, naturalmente fortalece os laços de confiança e cooperação entre todos. Aprendemos a reconhecer as competências de cada profissional, a respeitar os diferentes conhecimentos e a trabalhar de forma integrada, sempre mantendo a postura e a responsabilidade que a missão exige”, explica a Oficial.

Ela aponta a integração baseada no profissionalismo, no respeito mútuo e no compromisso como responsável por uma das experiências mais enriquecedoras de participar do PROANTAR. “Todos entendemos que estamos aqui com um objetivo maior. Somos uma equipe com um objetivo comum: representar o Brasil, cumprir a missão e contribuir para a pesquisa científica brasileira de qualidade na Antártica”, avalia.

Pesquisa de ponta

Entre fevereiro e março deste ano, a médica militar dividiu as instalações da EACF com a bióloga Thais Pileggi, que chegou ao local em avião da FAB, meses depois do grupo-base e dos primeiros pesquisadores. Ela, que é Coordenadora Pedagógica do Programa Escola Azul Brasil e integrante do projeto Com-ANTAR — projeto que conecta ciência e sociedade ao popularizar os resultados do Programa Antártico Brasileiro e promover a comunicação pública da ciência, testemunhou a importância da estrutura logística para o sucesso do PROANTAR.

 

“A Estação propicia o desenvolvimento de pesquisa de ponta no continente gelado. Não só a estrutura física, como equipamentos, laboratórios, mas também com material humano. Porque não basta a estrutura física se a gente não tiver pessoas que nos ajudem naquele ambiente extremamente difícil de coleta, de pesquisa”, acredita a bióloga. Para ela, o sucesso do Programa se explica pela qualidade das pesquisas e pelo rigor com que os pesquisadores são selecionados.

Quando a Capitão-Tenente (Médica) Lara Gomes deixar o continente gelado, em outubro deste ano, a doutoranda em Oceanografia Química da Universidade de São Paulo, Gabrielle Vieira Lube, chegará com um novo grupo de cientistas e militares. Ela se prepara para participar pela terceira vez, com o projeto CARBMET, que investiga como diferentes contaminantes circulam entre o oceano, a atmosfera e os sedimentos, e como isso está sendo afetado pelo aquecimento global.

Relevância internacional

“Nós estudamos, de uma maneira geral, a matéria orgânica presente nesses ambientes, buscando entender de onde ela vem e como ela é transformada e como ela circula nesse ambiente. A gente também investiga uma série de contaminantes, como elementos metálicos e também os microplásticos. E isso é de suma importância, porque a Antártica, apesar dela ser uma região remota e distante das atividades humanas, ela está conectada com o restante do planeta”, afirma.

Para as edições anteriores, além de participar do treinamento pré-antártico, no Rio de Janeiro (RJ), Gabrielle precisou permanecer por algumas semanas na EACF, que disponibiliza equipamentos e laboratórios aos pesquisadores. “É uma infraestrutura de ponta, tanto que é referência para uma série de outros países e instituições. Existe uma grande logística por trás, em que tudo depende de um planejamento extremamente cuidadoso e que começa muito antes do verão austral.”

É por meio dessa estrutura que as pesquisas brasileiras se sobressaem e ganham reconhecimento e relevância internacionais, acredita a doutoranda. 

Essa ciência de qualidade precisa de uma continuidade e o PROANTAR permite que o Brasil mantenha a presença científica constante na região, dando aos pesquisadores condições de realizar campanhas sucessivas e construir séries históricas para acompanhar essas transformações ao longo do tempo”, conclui.

Para a 45ª Operação Antártica (OPERANTAR), cuja previsão de início é outubro deste ano, o CNPq selecionou 29 projetos, dedicados a investigar temas como mudanças climáticas e eventos extremos, biodiversidade e ecossistemas terrestres e marinhos, saúde humana, patógenos e biotecnologia. Essa ampla frente interdisciplinar busca compreender a Antártica e suas conexões com a América do Sul e subsidiar estratégias de monitoramento, conservação e enfrentamento dos efeitos das mudanças climáticas.

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