À frente de uma das principais instâncias internacionais dedicadas à operação na Antártica, a Assessora Especializada de Relações Internacionais da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (SECIRM), Capitão de Mar e Guerra (Engenheira Naval) Haynnèe Trad Souza, acaba de assumir um posto que amplia a voz brasileira nas discussões sobre o futuro do continente gelado.
Eleita Vice-Presidente do Conselho de Gerentes dos Programas Antárticos Nacionais (COMNAP) para um mandato inédito de três anos, ela será uma das responsáveis por ajudar a definir a agenda técnica de uma organização que reúne os programas antárticos de 34 países. Nesta entrevista, a Oficial fala sobre os desafios de operar em um ambiente cada vez mais afetado pelas mudanças climáticas, o avanço de tecnologias – como drones e combustíveis alternativos –, a renovação dos meios navais brasileiros e o papel da Marinha do Brasil (MB) na logística e na segurança das operações — além de explicar por que estar no centro dessas discussões pode ser decisivo para o futuro do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR).
Agência Marinha de Notícias (AgMN): A senhora foi eleita para um mandato de três anos no COMNAP. Quais são as atribuições de um Vice-Presidente desse Conselho e em que será pautada essa atuação do Brasil?
Capitão de Mar e Guerra (Engenheira Naval) Haynnèe: O Comitê Executivo do COMNAP é responsável por apoiar a condução estratégica da organização entre as assembleias gerais, que são feitas anualmente; implementar as decisões dos membros; e contribuir para que a definição dos temas e das prioridades que serão tratados pelo Conselho reflitam os interesses e as necessidades dos diferentes programas antárticos nacionais.
A atuação brasileira será pautada, sobretudo, pelo fortalecimento do caráter técnico, colaborativo e não político do COMNAP. Para o Brasil, interessa que o Conselho continue sendo um espaço em que os distintos programas possam compartilhar experiências, desenvolver boas práticas e buscar soluções conjuntas para tornar as operações antárticas mais seguras, eficientes e ambientalmente responsáveis.
Também é uma oportunidade de acompanhar mais de perto discussões que podem afetar o planejamento das ações futuras do PROANTAR e, ao mesmo tempo, dar maior visibilidade à experiência acumulada pelo nosso País em mais de quatro décadas de presença continuada na Antártica.

AgMN: De que forma a presença da senhora na Vice-Presidência do COMNAP contribui para a atuação da MB?
CMG (EN) Haynnèe: A Vice-Presidência amplia a presença institucional da MB e do PROANTAR em um dos principais fóruns internacionais dedicados às operações antárticas.
O PROANTAR é um programa de Estado, com execução descentralizada e multi-institucional, que reúne diferentes órgãos e setores em torno da presença e da pesquisa brasileira na Antártica. Nesse arranjo, cabe à MB, por intermédio da SECIRM, a coordenação das atividades operacionais e logísticas do Programa.
Para a MB, portanto, essa participação significa acompanhar mais de perto discussões sobre temas diretamente relacionados às suas responsabilidades no âmbito do PROANTAR: logística marítima e aérea, segurança das atividades operacionais e científicas, proteção ambiental, construção e manutenção da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) e demais instalações antárticas brasileiras, capacitação de pessoal e cooperação internacional.
Também cria melhores condições para compartilhar a experiência adquirida pela Marinha, desde 1982, em operações antárticas e, simultaneamente, conhecer soluções desenvolvidas por outros países que possam ser úteis ao aprimoramento das capacidades brasileiras.
Um dos aspectos mais relevantes é a possibilidade de contribuir mais diretamente para a construção da agenda do Conselho e se inserir, desde suas etapas iniciais, nas discussões que podem influenciar o futuro das atividades antárticas.
Isso permite ao Brasil apresentar temas de interesse nacional e contribuir para que novas propostas sejam examinadas no momento oportuno e à luz de suas implicações operacionais. Questões relacionadas à sustentabilidade, novas tecnologias, combustíveis, transporte e infraestrutura, por exemplo, podem produzir efeitos importantes sobre o planejamento de longo prazo dos programas antárticos e, consequentemente, sobre as capacidades que o PROANTAR precisará desenvolver.
Estar no Comitê Executivo permite ao Brasil, portanto, não apenas acompanhar essas transformações, mas participar de sua formulação. Em última análise, isso fortalece a capacidade do PROANTAR de prover o suporte necessário à produção científica brasileira na Antártica e à manutenção de uma presença nacional ativa, responsável e continuada no continente — elementos essenciais para garantir a participação permanente no regime de governança antártica.

AgMN: A última vez que o Brasil ocupou essa cadeira foi há seis anos. Quantas vezes o Brasil já esteve na Vice-Presidência do COMNAP e de que forma isso contribuiu para a pesquisa científica brasileira desenvolvida no continente gelado?
CMG (EN) Haynnèe: Esta é a segunda vez que o Brasil ocupa uma Vice-Presidência do COMNAP. A primeira foi no período de 2019-2020, quando o Contra-Almirante Sergio Gago Guida exerceu a função por um ano. A atual eleição marca, portanto, o retorno do Brasil ao Comitê Executivo e, pela primeira vez, para o exercício de um mandato completo de três anos.
A participação brasileira no COMNAP já é, por si só, muito importante para o PROANTAR, porque permite acesso irrestrito a uma rede de cooperação e intercâmbio de conhecimento — especialmente dos temas técnicos e logísticos — que reúne os principais atores antárticos. A presença no Comitê Executivo amplia essa possibilidade, colocando o Brasil mais próximo do processo de formulação da agenda e das discussões sobre os desafios futuros das expedições antárticas.
É importante lembrar que o COMNAP não define prioridades científicas. Seu papel é criar condições para que a ciência possa ser realizada de forma colaborativa, levando em conta a segurança das atividades e a proteção deste ambiente único. Nesse sentido, os reflexos para a pesquisa brasileira são principalmente indiretos, mas muito concretos: melhores práticas de logística, maior interoperabilidade entre programas, compartilhamento de infraestrutura, equipamentos e conhecimento, além do desenvolvimento conjunto de soluções para desafios que seriam muito mais difíceis e onerosos de enfrentar isoladamente.
Tais avanços contribuem para melhorar o desenvolvimento das atividades de campo de todos os projetos de pesquisa atualmente vigentes no âmbito do PROANTAR, sob a coordenação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
A Vice-Presidência aumenta a capacidade brasileira de acompanhar essas discussões desde sua origem e de contribuir para que as especificidades e os interesses científico-operacionais do PROANTAR sejam considerados.

AgMN: O Brasil é o único País da América Latina a ocupar atualmente a Vice-Presidência, em substituição a um representante do Chile. É voga do Conselho ter ao menos um representante do continente sul-americano na Vice-Presidência? A que se deve isso?
CMG (EN) Haynnèe: Não existe uma cadeira formalmente reservada à América do Sul. Os Vice-Presidentes são eleitos pelos membros do COMNAP (34 países no total) e, portanto, não representam oficialmente uma região ou um grupo de países.
Certamente, a diversidade geográfica e operacional no Comitê Executivo é positiva para a organização — atualmente, além do Brasil, conta com Vice-Presidentes da Itália, Índia, Turquia e Reino Unido, uma Presidente polonesa e uma Secretária-Executiva dos EUA. Mas é preciso reconhecer que a América do Sul possui uma relação particularmente próxima com a Antártica: países da região mantêm programas consolidados, estações, navios, aeronaves e atividades científicas e logísticas regulares, além de importantes portas de entrada para o continente branco.
É, portanto, natural que os programas sul-americanos tenham participação ativa no COMNAP. A eleição brasileira deve ser entendida nesse contexto, mas, principalmente, como resultado do amplo apoio recebido entre os países-membros e do reconhecimento da capacidade do Brasil de contribuir para os trabalhos do Conselho.

AgMN: Como é a relação entre os Programas Antárticos da América do Sul e de que forma são apoiados mutuamente?
CMG (EN) Haynnèe: A cooperação entre os programas antárticos latino-americanos é bastante próxima e tem uma característica importante: ela não se limita às reuniões formais, mas se traduz em apoio multi-institucional efetivo, seja no transporte de pesquisadores e cargas, na utilização de navios e aeronaves, no apoio entre estações e bases, no intercâmbio de informações meteorológicas e logísticas, nas atividades científicas conjuntas e assistência em situações imprevistas. Na Antártica, onde as distâncias são grandes, as condições ambientais são desafiadoras e os recursos são limitados, essa capacidade de colaboração é fundamental.
A RAPAL – Reunião de Administradores de Programas Antárticos Latino-Americanos – fortalece essa relação ao proporcionar um fórum permanente para o compartilhamento de experiências, identificação de possibilidades de auxílio mútuo, construção de entendimentos comuns e fortalecimento do bloco regional nas demais instâncias do Sistema do Tratado da Antártica. A própria articulação em torno da candidatura brasileira à Vice-Presidência do COMNAP é um resultado recente dessa coordenação.
O Brasil tanto recebe apoio quanto oferece suas capacidades aos países parceiros. Essa reciprocidade aumenta a eficiência das operações, reduz custos e riscos e, principalmente, amplia as possibilidades de realização da ciência antártica. É uma demonstração muito concreta de que, no continente antártico e suas águas circundantes, a cooperação não é apenas um princípio: é também uma ferramenta concreta para garantir a segurança das atividades e ampliar a atuação de cada país.

AgMN: Na última Assembleia Geral Anual, em que a senhora foi eleita, as principais discussões versaram sobre combustíveis alternativos, gestão de bioincrustação, novas capacidades de navios de pesquisa e o uso de grandes sistemas de aeronaves pilotadas remotamente. O Programa Antártico Brasileiro tem contribuições ou avanços nessas áreas citadas?
CMG (EN) Haynnèe: São temas que se encontram em diferentes estágios de desenvolvimento no Brasil, mas todos são relevantes para o planejamento das Operações Antárticas (OPERANTAR), especialmente considerando que a MB é responsável pelas atividades operativas e logísticas na região austral.
Na área de combustíveis alternativos, por exemplo, o Brasil possui conhecimento e desenvolvimento tecnológico reconhecidos internacionalmente em biocombustíveis e outras fontes renováveis. A própria Estação Antártica Comandante EACF já conta com uma matriz diversificada de geração de energia, que combina fontes convencionais com geração eólica e solar, além de sistemas de cogeração. O desafio agora é avaliar de que forma novas soluções podem ser incorporadas, especialmente considerando requisitos fundamentais como disponibilidade e desempenho em baixas temperaturas.
Quanto à bioincrustação e demais questões ambientais, o tema está diretamente relacionado à prevenção da introdução de espécies não nativas e, portanto, à proteção ambiental da Antártica. O Brasil já adota procedimentos de prevenção de riscos ambientais, acompanha o desenvolvimento das melhores práticas internacionais e desenvolve protocolos específicos, sob orientação do Grupo de Avaliação Ambiental do PROANTAR, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
No período de verão, a MB opera atualmente com o Navio de Apoio Oceanográfico “Ary Rongel” e o Navio Polar “Almirante Maximiano” na região antártica, fundamentais tanto para a logística quanto para o desenvolvimento das atividades científicas a bordo. O País atravessa um momento particularmente importante com a iminente renovação da frota que apoia a pesquisa oceanográfica e antártica. A incorporação do Navio Polar “Almirante Saldanha”, em fase avançada de construção em estaleiro do Espírito Santo, amplia a área de atuação e as possibilidades de apoio logístico e científico do PROANTAR.
Já os drones representam uma fronteira promissora e têm sido utilizados para levantamentos científicos, monitoramento ambiental, reconhecimento de áreas e determinadas atividades logísticas, reduzindo em alguns casos a exposição de pesquisadores e militares a ambientes de maior risco. Ao mesmo tempo, exigem regulamentação, coordenação, segurança operacional e cuidados ambientais – especialmente em áreas com grande concentração de animais.
Nos temas aqui elencados, bem como em diversos outros assuntos tratados no âmbito do COMNAP, o objetivo não é simplesmente incorporar novas tecnologias, mas identificar aquelas que efetivamente aumentem a segurança, a eficiência e a sustentabilidade das OPERANTAR, comparando procedimentos e adotando soluções que tenham demonstrado bons resultados em outros programas. Dessa forma, o PROANTAR acompanha ativamente essas discussões, com especialistas brasileiros participando dos distintos grupos temáticos.

AgMN: De que forma a presença brasileira no Comitê Executivo do COMNAP pode contribuir para o planejamento de longo prazo do PROANTAR?
CMG (EN) Haynnèe: As operações antárticas atravessam um período de transformação, impulsionado pela incorporação de novas tecnologias, pelo fortalecimento das exigências ambientais, pela busca da redução de emissões e pela renovação de meios e infraestruturas. Muitos desses temas são debatidos tecnicamente no COMNAP antes de se consolidarem como práticas entre os programas antárticos nacionais ou de subsidiarem normativas no âmbito da Reunião Consultiva do Tratado da Antártica (ATCM), resultando assim em compromissos e obrigações para as partes.
Mais do que acompanhar mudanças, portanto, essa posição amplia a capacidade do Brasil de se preparar para elas e, quando possível, contribuir para a definição dos caminhos que serão adotados na condução das atividades no continente austral.


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