Para quem aprendeu desde cedo a enfrentar desafios, o domínio de um barco a vela diante de ondas e rajadas de vento tornou-se o reflexo da própria vida. Aos 13 anos, Lídia Monike Santos Barbosa encontrou no esporte não apenas uma atividade física, mas um ponto de equilíbrio em meio a um período de vulnerabilidade e perdas. Atleta de vela do Programa Forças no Esporte (PROFESP) desde os nove anos, ela transformou disciplina e perseverança em conquista: neste ano, subiu ao lugar mais alto do pódio na 20ª Copa Brasil de Estreantes da Classe Optimist, realizada em Itaparica, na Bahia.

O contato inicial com a vela aconteceu ainda na infância, quando Lídia entrou, pela primeira vez, em um veleiro. Para ela, o sentimento de felicidade e a emoção desse momento ainda estão vivos - “como se toda vez fosse a primeira”, relembra emocionada. O acesso ao esporte veio por meio do PROFESP, programa do Ministério da Defesa (MD) e aplicado nas Forças Armadas, que alia prática esportiva, disciplina e acompanhamento educacional. Para permanecer no Programa era preciso manter boas notas na escola, bom comportamento e comprometimento com os treinos — requisitos que a jovem rapidamente incorporou à rotina.

Mais do que aprender a conduzir um barco, Lídia encontrou no mar um espaço de pertencimento.

“A minha disciplina aumentou bastante. Quando estou velejando, lembro do início, da oportunidade que me deram. A partir daí, a Marinha virou a minha segunda casa”, conta. A vivência no ambiente naval despertou, inclusive, o sonho de um dia integrar a Força como marinheira.

Foi justamente no período mais delicado da vida - em que ficou quatro anos distante dos pais e perdeu precocemente dois irmãos - que o esporte surgiu como estrutura de apoio para as dificuldades. Hoje, ao lado do pai e rememorando o passado, ela enxerga o tamanho da conquista que teve em sua primeira Copa, em janeiro deste ano.

Foi difícil acreditar que eu poderia chegar tão longe. Nunca imaginei que iria velejar. Tudo isso é graças ao PROFESP e às pessoas que acreditaram em mim”, afirma.

Em sua trajetória de conquistas, a adolescente faz questão de exaltar quem esteve ao seu lado desde o início, quando entrou no projeto ainda criança. “Segunda mãe” é como ela define Ester Barbarioli Gonçalves, coordenadora pedagógica do PROFESP na Escola de Aprendizes-Marinheiros do Espírito Santo.

Como coordenadora do programa, Ester avalia a importância da Lídia nos treinos para os atletas mais novos: “É difícil até eu conseguir falar dela”, conta emocionada. “A experiência dela serve como inspiração e esperança para quem chega, hoje ela sabe tanto do esporte que até ensina outras crianças”, continuou.

A trajetória na vela ganhou novo impulso quando Lídia conquistou uma bolsa no Iate Clube Espírito Santo (ICES) após se destacar em uma disputa local. Foi a partir desse momento que a jovem passou a competir oficialmente e a ampliar sua experiência no esporte. Sob orientação de instrutores e com o acompanhamento próximo de Ester, sua madrinha esportiva, Lídia encontrou na vela um ambiente de acolhimento.

Além das atividades regulares no Programa Forças no Esporte durante a semana, a jovem mantém uma intensa agenda de treinos no Iate Clube do Espírito Santo (ICES) voltados às competições: às sextas-feiras, treina no período da tarde; aos sábados, dedica-se ao esporte do meio-dia até as 16 horas; e aos domingos, ainda retorna ao mar logo pela manhã. Mas a paixão pelo esporte é tão grande que ela afirma sentir saudades nos dias que não entra no mar.

A Classe Optimist, na qual Lídia compete, é considerada a principal porta de entrada para a vela esportiva no mundo. Destinada a crianças e adolescentes, utiliza embarcações pequenas e individuais, nas quais o atleta precisa tomar decisões individuais, interpretando vento, correnteza e estratégias de regata. “Tem que ter bastante atenção e foco. Tem muito vento, muita coisa para observar. Aprendi a me concentrar mais e a ter responsabilidade”, explica.

A 20ª Copa Estreantes da Classe Optimist representou um marco em sua trajetória. O evento reúne jovens velejadores de diferentes regiões do País e é voltado àqueles que estão dando os primeiros passos em competições nacionais. Para Lídia, foi o primeiro campeonato de grande porte fora do clube. “Quando subi no pódio, lembrei de tudo desde o começo. Foi muita emoção e felicidade”, recorda.

A viagem à Bahia também foi um desafio pessoal: foram nove dias longe da família. O retorno, porém, foi marcado por surpresa e orgulho. “Quando eu cheguei, vi meus pais me esperando no aeroporto com os meus amigos, fizeram uma festa, foi muito especial”, conta.

Para Fernando Barbosa, pai de Lídia, o esporte teve papel fundamental em um momento difícil da vida da filha. “O programa ajudou muito ela na nossa ausência. Toda vez que ela ia me visitar, ela me contava como era velejar. Eu perguntava se ela não sentia medo, e ela dizia para eu ficar tranquilo porque ela era corajosa”, relembra, orgulhoso.

Com o esporte presente em sua vida, Lídia acumula aprendizados que vão além do mar: “O barco é como a vida. Você aprende a controlar conforme as ondas e o vento. É assim com os desafios”, resume. Mais madura, consciente e determinada, a jovem velejadora olha para o futuro no horizonte com clareza.

Quero continuar competindo, subir mais vezes no pódio e nunca esquecer de onde eu saí”, afirma.

 

PROFESP: Forças no Esporte

O Programa Forças no Esporte é uma iniciativa coordenada pelo Ministério da Defesa, em parceria com as Forças Armadas, que utiliza o esporte como ferramenta de inclusão social, formação cidadã e fortalecimento de valores como disciplina, respeito e responsabilidade. Voltado a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, o programa associa a prática esportiva ao acompanhamento escolar, exigindo bom desempenho acadêmico, comportamento adequado e comprometimento com as condições para permanência.

No âmbito da Marinha do Brasil, o PROFESP é desenvolvido em organizações militares e centros de formação, oferecendo aos participantes acesso a modalidades esportivas, atividades educativas e acompanhamento contínuo. Além do incentivo ao esporte, a iniciativa proporciona a convivência em ambiente estruturado, contato com princípios da vida naval e estímulo à construção de projetos de vida, contribuindo para o desenvolvimento integral dos beneficiados.

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