Em um dos ambientes mais extremos do planeta, a Antártica — onde a presença humana depende de planejamento rigoroso e execução precisa — a atividade científica exige mais do que conhecimento técnico: requer experiência, resiliência e capacidade de operar sob condições adversas. Por mais de duas décadas no âmbito do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), um pesquisador brasileiro consolidou uma trajetória marcada por esses atributos, contribuindo para posicionar o País na vanguarda dos estudos sobre mudanças climáticas no continente gelado. E tudo começou com um sonho de criança.
Referência internacional em estudos ambientais em regiões extremas, o professor Carlos Ernesto Schaefer, criador do Centro Terrantar do Departamento de Solos da Universidade Federal de Viçosa, integra o grupo dos cientistas mais influentes do Brasil e atua há cerca de 25 anos na investigação dos impactos do aquecimento global sobre o ambiente antártico. Sua pesquisa tem como foco o permafrost — o solo permanentemente congelado — e suas transformações físicas, químicas e ecológicas ao longo do tempo.
“O que acontece com o solo à medida que a temperatura aumenta e o gelo do solo derrete? Ao mesmo tempo, qual é a resposta ecológica, que as plantas surgem ou desaparecem e quais mudanças físicas e químicas esse solo apresenta à medida que o aquecimento e o derretimento avançam?” — questiona. Desde as primeiras investigações, o trabalho resultou na implantação de uma rede consolidada de monitoramento ambiental, com dados contínuos que permitem compreender, com maior precisão, os efeitos das mudanças climáticas na região. O processo, no entanto, exigiu esforço contínuo e enfrentamento de diversos desafios.

Logística viabiliza avanço da ciência brasileira na Antártica
Em um local historicamente associado a grandes expedições científicas internacionais — como as lideradas por Roald Amundsen e Ernest Shackleton no início do século XX —, a realização de operações terrestres continua sendo uma das etapas mais complexas da presença humana na Antártica. Diferentemente do chamado período heroico da exploração polar, marcado pela incerteza e pela limitação tecnológica, as atividades atuais são baseadas em planejamento científico e suporte logístico estruturado, mas ainda exigem elevada capacidade operacional.
Nesse contexto, o pesquisador liderou a instalação de dezenas de estruturas científicas em áreas remotas, muitas delas sem estudos prévios, ampliando significativamente o alcance da ciência brasileira no continente. “Lançar com segurança 34 acampamentos demonstra a complexidade do projeto. Cada área nova que a gente mapeia e que a gente instala em um sítio de monitoramento é uma área que normalmente não foi estudada por ninguém. Então tudo o que a gente faz ali é novo”, ressaltou Schaefer. Segundo ele, foram estabelecidos 27 sítios que permanecem ativos até hoje.
A realização dessas operações em campo, especialmente em regiões isoladas e de difícil acesso, só é possível com o apoio logístico da Marinha do Brasil (MB), que viabiliza o deslocamento, a segurança e a permanência das equipes científicas no continente antártico. No âmbito do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), gerido pela Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, da MB, a Força Naval garante a integração entre meios navais, aéreos e estruturas em terra, como a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), o que possibilita a execução de projetos de longa duração em condições ambientais severas.
O suporte é prestado por ativos estratégicos, como o Navio Polar “Almirante Maximiano” e o Navio de Apoio Oceanográfico “Ary Rongel”, além de aeronaves que asseguram o transporte de pesquisadores, equipamentos e suprimentos e dão apoio direto às atividades científicas. As operações têm como base a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), onde se concentram as atividades brasileiras no continente.
Para pesquisadores como Schaefer, essa estrutura sólida de apoio representa um fator decisivo para a continuidade e o alcance das pesquisas, especialmente na condução de campanhas em áreas ainda não exploradas. A previsibilidade logística e a segurança operacional permitem que projetos científicos avancem com consistência, mesmo diante das limitações impostas pelo ambiente antártico.

Da vocação à pesquisa no continente gelado
A trajetória do pesquisador na Antártica começou a partir de uma formação que, à primeira vista, poderia parecer distante do ambiente polar. Engenheiro agrônomo de origem, ele encontrou na área ambiental e na geoquímica o caminho para ingressar em uma das frentes mais estratégicas da ciência contemporânea. “A agronomia abre um leque muito grande de atuação. Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade de integrar o PROANTAR, no início dos anos 2000, já com uma proposta científica estruturada e alinhada às demandas emergentes da pesquisa climática”, lembrou.
Antes mesmo de iniciar sua trajetória acadêmica, a paixão pela Antártica já se manifestava na vida do professor Schaefer, ainda que de forma intuitiva. Ao relembrar a infância, ele destaca que o primeiro contato com o tema despertou uma vocação que se consolidaria décadas depois. “Meus pais eram professores, e tive contato com livros sobre as regiões polares. Comecei a ler e me encantei com o tema. Desde então, já pensava em trabalhar, de alguma forma, com essa área”, relembra.
Segundo ele, após o interesse adulto no tema, um projeto começou baseado em um edital de 2001 para monitoramento ambiental do continente gelado, onde encontrou chances de trabalhar estudando tais mudanças climáticas. “Era tudo muito inicial, certamente, mas o projeto rapidamente evoluiu para uma das mais consistentes iniciativas brasileiras de monitoramento ambiental no continente, com impacto direto na compreensão das transformações do solo e dos ecossistemas antárticos”, completou Schaefer.
Além da investigação climática, o trabalho passou a incorporar outras dimensões relevantes, como os impactos da presença humana no ambiente antártico. “Paralelamente, desenvolvemos estudos sobre poluição e sobre os impactos da atividade humana na região, avaliando os efeitos dessas ações sobre o ambiente antártico”, explica.
Brasil se consolida como referência na ciência antártica
Ao longo dos anos, o avanço das pesquisas brasileiras na área de permafrost consolidou o País como referência internacional no tema.
“Hoje nós somos o País que lidera a pesquisa em monitoramento climático do permafrost nessa região toda”, aponta o pesquisador. Para ele, esse avanço só foi possível graças à combinação entre capacidade científica e suporte logístico contínuo e qualificado — com destaque para a atuação da MB. “Essa é uma coisa muito bem concatenada, a gente pode até falar, você imagina, lançar os acampamentos, tudo isso envolve bote, helicóptero, navio, os voos de apoio. Nunca tivemos nenhum problema de segurança nesses 25 anos”, celebra.
As atividades de campo, muitas vezes realizadas em áreas nunca antes estudadas, são um dos principais diferenciais do projeto. Ele conta que cada área nova que se mapeia é uma área que normalmente não foi estudada por ninguém. “Essa característica de ineditismo também confere um impacto direto na formação de novos pesquisadores e na produção de conhecimento científico original”, apontou.
E mesmo diante das condições extremas do continente, os desafios enfrentados em campo também se tornam parte do aprendizado científico. Houve uma tempestade muito forte que destruiu várias barracas, por exemplo. Mas dois dias depois, o acampamento estava todo refeito, estava todo reestruturado e a gente tocou barco até o final”, disse.
Para ele, essa busca constante é parte essencial da própria natureza da ciência, na medida em que afirma que o cientista é um eterno inquiridor. “Ele está sempre perguntando. Ele está sempre especulando. Ele está sempre insatisfeito com o que ele sabe”, completa.
Ao olhar para o futuro, ele reforça a importância de inspirar novas gerações a seguir na carreira científica.
Então, não deixe de sonhar, porque a vida é matéria de sonhos. Tudo que a gente tem no mundo real é a construção de desejos. E após mais de duas décadas de atuação no continente antártico, o sentimento permanece o mesmo da primeira missão: entusiasmo, aprendizado contínuo e compromisso com a ciência. Nesse sentido, só quero dizer que é um prazer estar aqui, 25 anos depois, como se eu estivesse desde a primeira vez”, finalizou Carlos Schaefer.



Comentários
Eu me senti lendo o livro de Robson Crusoé ou David Livignstone pela primeira vez.
Matéria bacana. Parabéns ao Professor, a toda a sua equipe, à Marinha do Brasil e àqueles que dedicam suas vidas a algo maior, por todos.
O Senhor DEUS os abençoe.
Parabéns ao pesquisador pelo belíssimo trabalho e dedicação para ciência e pesquisa... Viva o Brasil dos verdadeiros brasileiros.
Parabéns pelo trabalho, pesquisa e todo pessoal envolvido.
Sucesso.
BRAVO ZULU ⚓️🇧🇷
VIVA A CIÊNCIA.
BRAVO ZULU.
BRAVO ZULU
Sigas estudando,pesquisando, na Antártica e sigas realizando teus sonhos seja onde for, desejo êxito e bênçãos de abundância e bênçãos de boas realizações para ti, abraços de Liana viajante internacional ✈️
Parabéns pela belíssima pesquisa, pelo empenho e persistência em pesquisar um tema tão importante para toda a humanidade, não somente nos dias de hoje, como também no nosso futuro! Que Deus abençoe toda a equipe, que permanece firme apesar de todos os desafios encontrados nesta riquíssima missão! Sucesso!
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