A cooperação entre a Marinha do Brasil (MB) e a Universidade de São Paulo (USP) completou 70 anos e foi celebrada em 18 de agosto, durante cerimônia na Escola Politécnica da USP (Poli-USP), em São Paulo (SP). A parceria, que começou com a formação de engenheiros navais e passou a abranger pesquisas nas áreas nuclear, oceânica e de defesa, continua apresentando perspectivas para novas iniciativas conjuntas.

O evento contou com a presença do Comandante da Marinha, Almirante de Esquadra Marcos Sampaio Olsen; do Diretor-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha, Almirante de Esquadra Alexandre Rabello de Faria; do Secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo, Professor Doutor Vahan Agopyan; do Reitor da Universidade de São Paulo, Professor Doutor Aluísio Augusto Cotrim Segurado; do Vice-Diretor da Escola Politécnica da USP, Professor Doutor Gilberto Francisco Martha de Souza; entre outras autoridades civis e militares.

A parceria começou a ser construída em 1954, a partir da necessidade de ampliar a formação de engenheiros navais no Brasil. À época, grande parte da especialização desses profissionais ocorria no exterior, o que levou a Marinha a constituir uma comissão de engenheiros para estudar a implantação de um curso de graduação no País.

Após dois anos de estudos, a Escola Politécnica da USP foi escolhida para desenvolver a iniciativa em conjunto com a Marinha. Em 8 de maio de 1956, foi firmado o Acordo de Cooperação Técnica entre as instituições. A parceria deu origem ao Curso de Construção Naval, precursor do atual curso de Engenharia Naval da USP, cuja primeira turma se formou em 1959.

Segundo a Diretora do Centro de Coordenação de Estudos da Marinha em São Paulo (CCEMSP), Capitão de Mar e Guerra (Engenheira Naval) Fernanda Leal Benet, a iniciativa voltada inicialmente à formação de engenheiros navais ganhou novas dimensões ao longo das décadas. “Essa cooperação ultrapassou os limites da formação acadêmica, contribuindo para o desenvolvimento da Engenharia Naval e Oceânica, da pesquisa oceanográfica, da tecnologia nuclear e da inovação em sistemas de defesa”, ressaltou.

Com as sucessivas renovações do acordo, a atuação conjunta passou a contemplar áreas como Engenharia Mecânica, Elétrica e Nuclear. Cerca de 400 engenheiros foram formados para a Marinha nesse período. A cooperação contribuiu para o desenvolvimento da Engenharia Naval brasileira e para a interação entre o meio acadêmico, a indústria e o setor de Defesa.

O Vice-Diretor da Poli-USP, professor Gilberto Francisco Martha de Souza, destacou os efeitos da cooperação sobre a pesquisa, a modernização de laboratórios e a integração entre especialistas civis e militares. Segundo ele, os resultados alcançados ultrapassam a qualificação profissional e alcançam o desenvolvimento de soluções de interesse nacional.

Ao longo das décadas, a cooperação alcançou outras unidades da USP e diferentes áreas do conhecimento. Nesse processo, o CCEMSP consolidou-se como elo entre as instituições, apoiando projetos, laboratórios, atividades de pesquisa e a participação de especialistas em iniciativas conjuntas.

Um exemplo dessa capacidade de mobilização ocorreu durante a pandemia de Covid-19. Por intermédio do CCEMSP e do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP), a Marinha participou do Projeto INSPIRE, desenvolvido pela Poli-USP para a produção de ventiladores pulmonares. A cooperação contribuiu para transformar o protótipo acadêmico em equipamento homologado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ao final da iniciativa, mil unidades foram destinadas a 16 estados brasileiros.

Para o Prof. Dr. Vahan Agopyan, experiências como essa demonstram que os benefícios produzidos pela integração entre as instituições chegam diretamente à sociedade. 

O grande beneficiado dessa cooperação é o povo brasileiro. Universidade e Marinha atuam, cada uma em sua área de competência, em atividades de ensino, pesquisa e desenvolvimento científico e tecnológico voltadas ao atendimento do interesse público”, destacou.

Nos últimos anos, a parceria avançou em áreas diretamente relacionadas a programas de alta complexidade. No setor nuclear, a cooperação abrange modelagem computacional, infraestrutura laboratorial associada ao ciclo do combustível nuclear, ensaios termo-hidráulicos e apoio científico a iniciativas como o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) e o Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE).

Em 2026, essa frente alcançou uma nova etapa com a formalização de um instrumento específico para o setor nuclear, voltado à formação de especialistas, à implantação de laboratórios e ao fortalecimento de pesquisas em tecnologias consideradas estratégicas.

Além de revisitar os resultados construídos ao longo das últimas sete décadas, a programação comemorativa voltou-se para os desafios futuros. O painel “A inovação em ambientes complexos – O foco na liderança e no processo de tomada de decisão” reuniu os Profs. Drs. Marcelo Knörich Zuffo e Antonio Carlos Marques e o Vice-Almirante José Cláudio Oliveira Macedo para discutir os fatores que influenciam a capacidade institucional de inovação em organizações de elevada complexidade.

O debate abordou liderança, formação de recursos humanos, colaboração entre equipes, governança e processos decisórios, combinando experiências práticas e fundamentos teóricos. Os participantes discutiram como esses fatores podem favorecer decisões mais eficazes, ampliar a capacidade de adaptação institucional e criar ambientes propícios à inovação. Também ressaltaram que inovar não depende apenas do domínio de novas tecnologias, mas da capacidade das organizações de integrar competências, estimular a aprendizagem contínua e criar condições para o desenvolvimento de novas soluções.

A programação incluiu ainda a apresentação da reedição de “À Margem da Ciência”, obra do Almirante Álvaro Alberto. A publicação reúne os quatro volumes originais, editados entre 1960 e 1972, compostos por artigos jornalísticos e conferências proferidas pelo Almirante a partir de 1927.

A coleção conta também com um volume dedicado à tese da doutora Camila Martins Cardoso, “Arquivo Álvaro Alberto: vida e obra através dos documentos”, desenvolvida a partir da análise de seu acervo documental. Na ocasião, o Diretor-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha e o representante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Roberto Muniz Barreto de Carvalho, entregaram, respectivamente, exemplares da coleção ao Reitor da USP e ao Comandante da Marinha.

Ao abordar a continuidade da parceria, o Prof. Dr. Aluísio Augusto Cotrim Segurado ressaltou a integração entre pesquisa, formação de pessoas e aplicação do conhecimento no âmbito da cooperação. “A parceria entre a Universidade de São Paulo e a Marinha do Brasil reúne atividades de pesquisa, formação de pessoas e aplicação do conhecimento em áreas de interesse comum. Essa atuação conjunta se desenvolve a partir de uma relação de longo prazo entre as instituições e do intercâmbio de conhecimentos e competências”, afirmou.

O Almirante de Esquadra Marcos Sampaio Olsen destacou a ampliação da cooperação ao longo das décadas e as diferentes áreas abrangidas pela atuação conjunta. “Para além do processo de qualificação profissional, a cooperação passou a abranger projetos de pesquisa e desenvolvimento tecnológico em diferentes áreas. Ao longo das décadas, Marinha e USP reuniram esforços na formação de pessoas, na pesquisa científica e no intercâmbio de conhecimentos”, afirmou.

Ao término da cerimônia, o Comandante da Marinha entregou ao Reitor da USP uma estátua do Almirante Tamandaré, Patrono da Marinha, e uma obra dedicada à sua trajetória. Na sequência, autoridades e convidados participaram do descerramento do monumento comemorativo aos 70 anos do Acordo de Cooperação Técnica entre a MB e a USP.

Sete décadas após a assinatura do acordo, a relação entre a Marinha e a USP permanece voltada à formação de pessoas, à produção de conhecimento e ao desenvolvimento tecnológico. Da criação do curso de Engenharia Naval às atuais iniciativas em inovação e tecnologia nuclear, a cooperação passou a abranger diferentes áreas de atuação, mantendo abertas novas possibilidades de atuação conjunta em benefício do País.

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