A busca por soluções cada vez mais seguras para as comunicações do futuro, em especial no ambiente militar, levou um Oficial da Marinha do Brasil (MB) a conquistar destaque em uma das mais renomadas instituições de ensino e pesquisa voltadas à defesa no mundo. O Capitão-Tenente (Engenheiro Naval) Fernando José de Oliveira recebeu o prêmio “Destaque Acadêmico para Estudante Internacional da Naval Postgraduate School (NPS)”, nos Estados Unidos, em reconhecimento à pesquisa desenvolvida durante seu mestrado na área de Ciência da Computação.

O trabalho, voltado ao fortalecimento da segurança em redes móveis de quinta geração (5G), chamou a atenção da comunidade acadêmica e de especialistas do setor por apresentar uma solução inovadora para autenticação e controle de acesso em ambientes de comunicações críticas. O projeto alcançou resultados expressivos, entrou em processo de patenteamento junto à instituição norte-americana e passou a ser considerado uma referência para pesquisas futuras na área.

Uma nova abordagem para o 5G

A pesquisa desenvolvida pelo Oficial brasileiro propõe uma arquitetura capaz de adicionar uma camada extra de segurança às redes 5G, permitindo que a autenticação dos usuários ocorra de forma contínua e personalizada. Diferentemente dos modelos convencionais, que validam apenas o dispositivo conectado à rede, a solução considera também a identidade do usuário, sua função e o contexto operacional em que está inserido.

Na prática, a tecnologia possibilita que diferentes perfis tenham acesso apenas aos recursos necessários para o cumprimento de suas atribuições. Em um ambiente militar, por exemplo, um comandante poderia acessar informações estratégicas e sistemas de comando e controle, enquanto outros usuários teriam permissões restritas a funções específicas. Todo esse processo ocorre de forma dinâmica, com verificações permanentes de segurança ao longo da conexão.

A proposta está alinhada aos conceitos mais modernos de cibersegurança, conhecidos como "Zero Trust" (confiança zero), modelo que pressupõe a necessidade de validações contínuas para reduzir vulnerabilidades e minimizar riscos de acesso indevido.

A solução desenvolvida pelo Oficial brasileiro apresenta potencial para ampliar a proteção das comunicações em ambientes operacionais complexos em nosso País, nos quais a integridade das informações e o controle rigoroso dos acessos são fatores essenciais para o sucesso das missões.

Segundo o Capitão-Tenente (Engenheiro Naval) Fernando, a pesquisa pode contribuir, no Brasil, para futuras iniciativas relacionadas à transformação digital, à proteção cibernética de sistemas críticos e à adoção de tecnologias avançadas de conectividade, fortalecendo a capacidade de operação em cenários cada vez mais integrados e dependentes do fluxo seguro de informações.

Acredito que esse projeto reverbera a capacidade militar brasileira no exterior e estabelece o conhecimento necessário para replicarmos laboratórios avançados de 5G no Brasil. Tudo isso pavimenta o caminho para que a nossa Marinha se consolide como uma das grandes forças globais no desbravamento de tecnologias de defesa aplicadas ao cenário cibernético”, avaliou o Oficial.

Desafios, descobertas e persistência

A pesquisa começou com um desafio técnico que exigiu paciência e persistência diária dentro do laboratório, em meio a tentativas, erros e ajustes constantes até que o sistema finalmente respondesse como esperado. Nesse processo, o avanço não veio de forma imediata, mas foi sendo construído gradualmente, à medida que cada etapa era superada e novos resultados começavam a surgir. “Passei cerca de três meses apenas tentando fazer o celular se conectar à rede 5G no laboratório. Esse foi o primeiro desafio”, conta o Capitão-Tenente.

Com a primeira conexão estabelecida, os testes passaram a confirmar que o esforço técnico estava no caminho certo, abrindo espaço para a validação do conceito desenvolvido e para o fortalecimento da proposta de segurança em redes de nova geração. “O ambiente de testes funcionou perfeitamente. Conseguimos comprovar o conceito e demonstrar que essa abordagem pode aumentar a segurança em sistemas 5G”, completou.

Segundo ele, o amadurecimento da solução trouxe também o reconhecimento do potencial inovador do trabalho, em um momento em que a pesquisa começou a ultrapassar o estágio experimental e a ganhar perspectiva de aplicação prática. Ao longo da trajetória acadêmica, o desenvolvimento foi acompanhado por uma rotina intensa de estudos, colaboração e integração com outros pesquisadores, em um ambiente internacional de aprendizado contínuo. “Eu estava apenas fazendo o melhor que podia durante todo o tempo em que estive aqui – participando da comunidade, interagindo com outros alunos e me concentrando na minha pesquisa”, ponderou.

E mesmo diante das dificuldades técnicas e pessoais, o avanço da pesquisa seguiu sustentado pela determinação em concluir o trabalho e expandir seus resultados para além do ambiente acadêmico. “Quero replicar esse laboratório de 5G no Brasil e continuar desenvolvendo o projeto, assegurou o Capitão-Tenente Fernando.

O percurso, no entanto, não foi isento de desafios pessoais, que se somaram à exigência técnica do projeto e tornaram a experiência ainda mais intensa e transformadora. “Houve momentos em que pensei: ‘não vou conseguir fazer isso’. Minha esposa me disse: ‘eu acredito em você’, e meus filhos me lembravam de parar de trabalhar e passar um tempo com a família. Caso contrário, eu teria ficado no laboratório o tempo todo”, completou o Oficial.

Trajetória na Marinha do Brasil 

O processo de entrada do Capitão-Tenente Fernando na MB, assim como sua formação, foi marcado pela integração contínua da prática militar com o aperfeiçoamento acadêmico. Ele ingressou no Corpo de Engenheiros da Marinha em 2015 e, assim que concluiu o Curso de Formação de Oficiais em 2016, foi movimentado para a Diretoria de Comunicações e Tecnologia da Informação da Marinha (DCTIM). 

Lá, passei a atuar na área de Infraestrutura de TI e Conectividade, lidando diretamente com telefonia IP e os serviços inerentes à Rede de Comunicações Integradas da Marinha (RECIM). Desde que ingressei, busquei expandir continuamente meus conhecimentos para agregar valor à instituição: buscando maior aprofundamento técnico, decidi iniciar um mestrado em Engenharia Elétrica e de Telecomunicações na Universidade Federal Fluminense (UFF), o qual concluí no início de 2019”, discorreu. 

Em seguida, a MB lhe proporcionou a oportunidade de realizar uma pós-graduação lato sensu, desta vez em Engenharia de Redes – finalizada em 2022 –, cuja escala de aperfeiçoamento e a forte necessidade de dominar o campo da cibersegurança, por parte do militar, o impulsionaram a participar do rigoroso processo seletivo para a Naval Postgraduate School (NPS). 

Foi a Marinha do Brasil que me proporcionou os pilares educacionais por meio da estabilidade profissional, da disciplina e da perseverança, permitindo-me focar integralmente na excelência técnica. A instituição demonstrou imensa valorização de seu Pessoal ao acreditar no impacto da educação para a expansão do conhecimento”, reiterou o Capitão-Tenente Fernando.

Reconhecimento e prestígio institucional

Os resultados alcançados durante o mestrado projetaram o Oficial brasileiro além do ambiente acadêmico. Ao longo de sua trajetória na Naval Postgraduate School (NPS), o Capitão-Tenente teve sua dissertação reconhecida entre os trabalhos de maior relevância desenvolvidos na universidade. Porém, o reconhecimento ultrapassou as premiações. 

Em documentos oficiais encaminhados à MB, professores e dirigentes da NPS destacaram a originalidade da pesquisa e seu potencial de aplicação em ambientes de defesa. A relevância do projeto também motivou a criação de discussões sobre o estabelecimento de uma nova linha de pesquisa na área de segurança de redes móveis avançadas, baseada nos resultados obtidos durante o mestrado. Além disso, a pesquisa foi apresentada em eventos estratégicos voltados à inovação e à transformação digital na área de Defesa, reunindo representantes governamentais, especialistas, pesquisadores e empresas do setor de telecomunicações e segurança cibernética.

Esse resultado não apenas consolida o êxito da pesquisa, mas também fortalece a cooperação científica e tecnológica entre a MB e os Estados Unidos. Diante da maturidade do projeto e da relevância do tema para a área de defesa, a iniciativa abre caminho para o aprofundamento dos estudos, com perspectivas de continuidade por meio de programas de mestrado e doutorado na Naval Postgraduate School. Esse cenário reforça a capacidade da Força Naval brasileira de atuar na fronteira do conhecimento e amplia as oportunidades de colaboração estratégica entre os dois países.


Foto de Capa: Marinha dos Estados Unidos/Marinheiro Zadi Watkins 

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