Muito além do horizonte, uma complexa rede de navios de pesquisa, boias oceanográficas, estações meteorológicas, satélites e modernos equipamentos científicos opera diariamente para desvendar os fenômenos que ocorrem no mar. Esse trabalho, conduzido pela Marinha do Brasil (MB), produz informações essenciais para a segurança da navegação, a proteção da vida humana no mar, a pesquisa científica, a exploração sustentável dos recursos marinhos e o fortalecimento da soberania nacional.
As pesquisas oceanográficas e o monitoramento contínuo das condições meteorológicas e ambientais permitem compreender a dinâmica dos oceanos e antecipar fenômenos capazes de influenciar desde operações navais até atividades econômicas estratégicas. Correntes marinhas, marés, ventos, ondas e alterações climáticas são observados permanentemente, gerando dados que subsidiam ações de defesa, logística, transporte marítimo, pesca, exploração energética e conservação ambiental.
Nesse contexto, a Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN), órgão técnico da Marinha responsável pelas atividades hidrográficas, oceanográficas, meteorológicas e de sinalização náutica, desempenha papel fundamental na produção e disseminação desse conhecimento estratégico.
Salvaguarda da vida no mar
Uma das principais missões da DHN é contribuir para a salvaguarda da vida humana no mar, princípio consagrado em acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário e que orienta as atividades desenvolvidas pela Autoridade Marítima Brasileira.
Os serviços oferecidos pela Marinha funcionam ininterruptamente, fornecendo informações essenciais para a prevenção de acidentes e para a mitigação dos impactos de eventos meteorológicos extremos. Levantamentos hidrográficos, monitoramento ambiental, sinalização náutica e previsões meteorológicas e oceanográficas integram um conjunto de produtos destinados a tornar a navegação mais segura e eficiente.
Cartas náuticas, previsões do tempo, boletins meteorológicos, tábuas de marés e avisos aos navegantes são disponibilizados ao público por meio dos canais oficiais da DHN, das redes sociais e de aplicativos institucionais, como o Sistema de Previsão de Correntes de Maré em Águas Rasas (SISCORAR) e o Previsão Ambiental Marinha (PAM).
Segundo o Encarregado da Divisão de Oceanografia Operacional do Centro de Hidrografia da Marinha (CHM), Capitão de Corveta Elias de Castro Nadaf, as atividades de meteorologia marítima envolvem a aquisição de dados, a elaboração de análises especializadas e a produção de previsões meteoceanográficas para todo o território nacional, seguindo padrões estabelecidos pela Organização Meteorológica Mundial.
Os avisos são emitidos aos navegantes com a máxima antecedência possível, estando associados à ocorrência de fenômenos habituais ou extremos, de modo que possam evitar áreas de risco, contribuindo para a segurança da navegação", destacou o Oficial.

Ciência e tecnologia a serviço do oceano
Para ampliar sua capacidade de monitoramento e pesquisa, a Marinha emprega tecnologias de ponta na coleta e análise de dados ambientais. Boias oceanográficas e meteorológicas, satélites de sensoriamento remoto, perfiladores e plataformas de observação permitem acompanhar parâmetros como temperatura do ar e da água, umidade, precipitação, correntes marinhas, salinidade, altura das ondas e intensidade dos ventos.
Esse sistema de monitoramento é complementado pelos nove navios de pesquisa atualmente em operação na Força Naval. Entre eles, destaca-se o Navio de Pesquisa Hidroceanográfico (NPqHo) “Vital de Oliveira” (H-39), considerado o mais moderno navio de pesquisa operado pela DHN e um dos mais avançados laboratórios flutuantes da América Latina.
Equipado com 28 sistemas científicos de alta tecnologia e laboratórios especializados, o navio realiza pesquisas hidrográficas, oceanográficas, meteorológicas, geológicas e ambientais, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a Amazônia Azul e fortalecer a produção científica nacional.
Entre seus principais equipamentos está o sistema CTD-Rosette, responsável pela medição de condutividade, temperatura e profundidade da água, além da coleta de amostras para análises de salinidade, oxigênio dissolvido, fluorescência e plâncton. Durante as comissões, os dados são coletados e processados continuamente, ao longo das 24 horas do dia.
O Centro de Hidrografia da Marinha também conta com a cooperação de instituições parceiras, como a Petrobras, que contribui com informações obtidas por veículos autônomos de monitoramento, incluindo Gliders submarinos e plataformas de superfície do tipo Sailbuoy, capazes de operar por longos períodos sem intervenção humana.

Conhecimento para a soberania nacional
Conhecer o oceano é uma atividade que transcende o campo científico e assume caráter estratégico para o Brasil. O levantamento das características do relevo submarino, das correntes marinhas, da dinâmica das massas d'água e das condições ambientais amplia a capacidade do Estado brasileiro de exercer seus direitos e responsabilidades sobre os espaços marítimos sob sua jurisdição, fortalecendo a soberania nacional e a proteção dos interesses do País no Atlântico Sul.
A Diretoria de Hidrografia e Navegação desempenha papel fundamental na produção de dados hidrográficos, oceanográficos e geológicos que subsidiam desde o planejamento das operações navais até o gerenciamento sustentável dos recursos existentes na chamada Amazônia Azul, área marítima de importância estratégica que abriga expressiva parcela da biodiversidade, das rotas comerciais e das riquezas naturais brasileiras.
Um dos principais exemplos dessa atuação é o apoio ao Plano de Levantamento da Plataforma Continental Brasileira (LEPLAC), programa de Estado que reúne informações técnico-científicas destinadas a fundamentar a definição dos limites exteriores da Plataforma Continental brasileira, em conformidade com os critérios estabelecidos pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Os estudos desenvolvidos permitem ao Brasil pleitear o reconhecimento de áreas marítimas além das 200 milhas náuticas, ampliando seus direitos de soberania para fins de exploração e aproveitamento dos recursos naturais existentes no leito e no subsolo marinhos.
Como resultado dos levantamentos hidrográficos realizados pelo LEPLAC, a Comissão de Limites da Plataforma Continental da ONU aprovou, em março de 2025, a ampliação da plataforma continental do Brasil. A decisão reconheceu o direito do país sobre uma nova área de cerca de 360 mil km² na Margem Equatorial (entre o Amapá e o Rio Grande do Norte), tamanho equivalente ao território da Alemanha. Essa conquista amplia a soberania nacional sobre a área marítima e garante o direito exclusivo de exploração dos recursos minerais e energéticos do solo e subsolo marinhos.
Além de fortalecer a posição brasileira nos fóruns internacionais, os levantamentos hidrográficos e oceanográficos realizados pela Marinha contribuem para o planejamento de atividades ligadas à defesa, à pesquisa científica, à exploração sustentável dos recursos minerais e energéticos e à preservação ambiental. Ao transformar dados coletados no mar em conhecimento estratégico, a Instituição amplia a capacidade do País de compreender, monitorar e proteger seu patrimônio marítimo, consolidando a Amazônia Azul como um ativo fundamental para o desenvolvimento e a soberania nacional.

Ciência em ação: pesquisas e levantamentos realizados em 2026
Além de dar continuidade às atividades do Levantamento da Plataforma Continental Brasileira (LEPLAC), com o intuito de subsidiar o pleito brasileiro junto a organismos internacionais para ampliar, ainda mais, a área marítima nacional, os navios oceanográficos e hidroceanográficos da Marinha seguem produzindo dados estratégicos para a segurança da navegação, o desenvolvimento de previsões oceanográficas e ambientais, o apoio à pesquisas científicas e à soberania.
Com o emprego do Navio Hidroceanográfico (NHo) “Cruzeiro do Sul”, a Marinha fortaleceu relações diplomáticas com os Serviços Hidrográficos da Argentina e do Uruguai, durante a comissão CHAtSO/OCEATLHAN, reafirmando o compromisso com a produção de dados, de acordo com padrões internacionais, no Atlântico Sul.
Com a missão de apoiar a pesquisa científica e garantir a manutenção de instrumentos de auxílio à navegação, o Navio Hidroceanográfico Faroleiro “Graça Aranha”, durante a Comissão PROTRINDADE, transportou pesquisadores de diversas universidades públicas e privadas do país até a Ilha da Trindade, em apoio a programas científicos voltados à conservação ambiental, à biodiversidade e ao monitoramento climático; e navegou de norte a sul na Comissão RADIOFARÓIS, assegurando o perfeito estado de manutenção de faróis e instrumentos que orientam e auxiliam as embarcações.
Tendo percorrido vinte portos, ao longo de toda a costa brasileira, a Comissão EPOPÉIA DO CANANÉIA mostrou que mais importante que o tamanho é a capacidade de cumprir a missão. Durante cinco meses, o Aviso Hidroceanográfico “Cananéia”, o menor da frota hidroceanográfica da Marinha, realizou lançamento de boias de balizando, manutenção de boias de sinalização náutica e levantamentos de dados hidroceanográficos em rios e áreas marítimas onde os navios maiores não chegam, contribuindo de forma significativa para a segurança da navegação.

A Década dos Oceanos e a Economia Azul
As atividades desenvolvidas pela Marinha estão alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas e à Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, contribuindo para ampliar a compreensão do Atlântico Sul e promover o uso responsável dos recursos marinhos.
Os conhecimentos produzidos pela DHN possuem aplicações diretas em setores estratégicos da chamada Economia Azul. Informações sobre correntes marinhas, temperatura da água, relevo do fundo oceânico, ventos e ondas subsidiam operações offshore, apoiam a exploração de petróleo e gás, favorecem a atividade pesqueira e tornam o transporte marítimo mais seguro e eficiente.
Segundo o Capitão de Corveta Elias de Castro Nadaf, dados sobre correntes, características do fundo marinho, ventos e ondas são fundamentais para o planejamento de plataformas, a instalação de dutos submarinos e a condução segura das operações de exploração energética.
Na pesca, o monitoramento ambiental auxilia na identificação de áreas favoráveis à ocorrência de determinadas espécies e contribui para a segurança das embarcações. No transporte marítimo, previsões meteorológicas, cartas náuticas atualizadas e informações sobre o estado do mar permitem otimizar rotas e reduzir riscos operacionais.
Ao produzir conhecimento científico e transformá-lo em informações estratégicas para a defesa, a economia e a proteção da vida humana, a Marinha do Brasil contribui para a soberania nacional e o desenvolvimento sustentável da Amazônia Azul.



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